Juro que tentei
te amar sem críticas
te amar apesar de tua dureza
te amar apesar de tuas dúvidas
te amar apesar de tuas certezas
Juro que quis
abandonar minha religião e fazer da tua palavra meu credo
me render a tuas vontades
perder o medo de te querer
E te amei
apesar de minhas críticas
apesar de tuas críticas
carregada sempre de uma saudade incurável
(porque nunca nos alcançávamos)
Juro que te amei
e consegui te amar
apesar de tudo em você
me negar permanência
me negar certeza
me negar calor
E como nada me concedias
passei a buscar
qualquer coisa
que me consolasse de tanto amor
Te amei
no desconforto do teu me ignorar
Mas fui crescendo tão grande
no avizinhamento de tua ausência,
fui me habituando tanto a ser sem ti do teu lado,
que ser sem ti e sem teu lado me doeu bem menos
Construí tantas pontes dentro de mim
criei um mundo tão meu, para me distrair da tua distância
que sofrer tua distância já era bem menos interessante que passear no meu mundo
De tanto não te esforçares
-me entregava, e não me recebias-,
devolvi-me a mim
(ou tu me devolveras e eu soube me receber)
E de volta a mim,
assim tão plena,
descobri que amei
minha própria generosidade
minha inventividade
meu jogo de arriscar amar
Mas ainda tenho
saudades incuráveis
-a saudade de uma infância,
a saudade do ingênuo,
a saudade daqueles sonhos,
não de ti
sábado, 4 de outubro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
(pra ser um fado II)
Num quarto de hotel
Numa festa
Na rua
Num bar
Em meio a tanta gente
Ainda esperas por mim?
Tens pressa?
Tens a certeza de que chegarei?
O que intuis na tua espera?
Ainda esperas por mim?
Vais me receber de coração aberto?
Ou só me esperas para devolver ressentimento?
Me esperas com desejo, paz ou desalento?
Ainda por mim esperas?
Se me vires
Reconhecerás em mim aquela da tua espera?
Quem esperas quando esperas?
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
Quanta coisa
Na vida e em nós já mudou
Depois que a gente
No mundo se espalha
A gente não sabe mais se recolher
E a gente fica vagando, peregrinando
Inquieto
Pensando se alguém nos espera
Em qualquer parte
Com qualquer querer
Lembrando de alguém
Que talvez nos espera
Amando ainda uma memória
De alguém que depois de tanto tempo
tanto trem
tanta estrada
e tanto mar
Já é outro alguém
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
(pra ser um fado I)
A não amar ninguém
Estás condenado
À solidão
Estas condenado
Ao amargor
No berço da desilusão
Estás condenado
A não amar ninguém
Estas condenado
À solidão
Estás condenado
Ao desamor
Ao fado da resignação
Se não te encantas como eu
Se não balançam tuas mãos
Se não pereces no viver
Vais perecer neste vagão
A vida exige o mais de si
O amor exige doação
Se nao te entregas como eu
Estás fadado à solidão
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Os rios minguaram, estas semanas
Me lembraram a paz que pode vir da aridez
Joguei fora uns remédios passados da validade
Limpei umas gavetas
Comi banana d'água assada com canela
Fiquei mais na varanda
Senti frio no sereno
Gripei
Dancei forró
Planejei viagens
Paguei contas
Não sobrou dinheiro para viajar
Estirei uns músculos por sobrecarga, na academia
Senti dor, nos tempos de dor
Passou
Muitas coisas se sobrepuseram ao rasgo daqueles dias
A lembrança tua se juntou aos montes de outras lembranças que já não alarmam mais
Cantei Roberta Sá
Fingi que encontrei um novo amor
Não menti para ninguém
Comprei novos batons
Nunca me vi tão forte em mim
Tão certa
Estou indo bem
Não quero nem saber
Me lembraram a paz que pode vir da aridez
Joguei fora uns remédios passados da validade
Limpei umas gavetas
Comi banana d'água assada com canela
Fiquei mais na varanda
Senti frio no sereno
Gripei
Dancei forró
Planejei viagens
Paguei contas
Não sobrou dinheiro para viajar
Estirei uns músculos por sobrecarga, na academia
Senti dor, nos tempos de dor
Passou
Muitas coisas se sobrepuseram ao rasgo daqueles dias
A lembrança tua se juntou aos montes de outras lembranças que já não alarmam mais
Cantei Roberta Sá
Fingi que encontrei um novo amor
Não menti para ninguém
Comprei novos batons
Nunca me vi tão forte em mim
Tão certa
Estou indo bem
Não quero nem saber
quarta-feira, 28 de maio de 2014
sem alardes
ages sem alardes
porque não avanças em me possuir
me tens inteira
minha vontade e apenas ela é o laço que me lança a ti
porque sou voluntariamente tua
te cubro de mistério
(é só o que sei dar)
não digo que te compreendo
porque há entre nós uma comunicação imediata
que vai além do compreender ou não compreender
que não tem caminho, percurso, trajeto
que se estabelece instantaneamente
-uma comunicação que de tão extraordinária
é quase o oposto de si
teu mistério
é não ter mistério algum
porque não tens alardes
não estremeço
não temo
nem recuo
me aproximo
quero ver o que existe
além da tua mansidão
segunda-feira, 7 de abril de 2014
eu preciso, em muitos momentos, ser exclusivamente só. é apenas quando sou toda solidão, que sou em absoluto - ora eu, ora o mundo. pois quando estou só, posso me expandir. ocupo toda a casa, todo o lugar, se estou entre paredes. se estou em campo aberto, me oblitero, sou qualquer coisa que não eu. me transmuto em outras matérias. sou assim: mar imenso, formiguinha carregando folha, fumaça de escapamento, barulho de motor, cheiro de grama cortada, terra. uma pessoa só é uma pessoa tão com ela, tão nela centrada, que encontra conforto até numa luz de abajur, num chocolate esquecido na bolsa. uma pessoa só é uma pessoa tão com ela, tão nela centrada, que quando ela perde um amor que tinha, ela lamenta pelo outro, que o outro tenha perdido as possibilidades de descoberta e contato com o mundo e consigo que só a pessoa que é só pode proporcionar ao outro. a pessoa que é só, que é nela centrada, é tão certa de si que de si transborda e quer ondear o outro. quer banhar o outro de si e repuxar o centrado que o outro tem dele. começa como se mistura farinha à massa de pão de ló, mexendo devagar e leve, pra ficar aerado, mas logo quer se fundir como metal, passando a ser um terceiro ser. esse desejo de fusão jamais pode ser realizado, mas a pessoa que é só não se frustra. sabe que o desejo precisa continuar sendo desejo para que não morra. sabe que ser só é a condição primeira para sentir o outro.
domingo, 27 de outubro de 2013
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
sweet memories
of you and me
of when your bedroom was our world
of those endless lazy sunday mornings
of the soft touch of the sunlight coming between the curtains
discovering us
a new continent
a new island
a lake inside a cavern
-the nature of ourselves
~
the less words we need
the more things are said and known
and you know what is better than anything?
i still have you by my side
and it tastes like forever
-as sweet as the sweet memories
sábado, 24 de agosto de 2013
confessionária IV
Desde que te perdi, não sei desde quando passei a me tornar você. Ao me tornar o objeto do meu desejo, da minha crítica, do meu escárnio, não sou menos nem mais - apenas experimento ser a mim mesma em outra(s) versão(ões)/ ou ser a sua versão de si e não a minha/ ou a minha versão sobre você, mais esforçada em lhe compreender. Sou vidas inconciliáveis numa só, sem o conflito e a dor de antes. Tenho me resolvido assim: acumulando e reproduzindo o que não posso ter nem ser, e sendo.
terça-feira, 23 de julho de 2013
confessionária III
Estou sempre dividida, mas você me vê como alguém em pedaços. Não consigo ser de um lado só, porque vejo riqueza em tudo. Você vê fragmentação onde eu vejo multiplicidade. Então, não é porque você não consegue ver o mesmo, que eu vou aniquilar as minhas impressões do mundo. Você não é os meus sentidos, e a vida do mundo não depende do seu olhar. E é por isso também que eu te amo: você é uma outra visão das coisas - uma visão que me irrita, uma visão da qual eu discordo, mas a sua insistência nela me provoca alguma admiração. Ou talvez eu te ame porque não te entendo. Não te entendo mas te acato. Acato até mesmo sua incompreensão do mundo, essa visão que não consigo ter. E me enebrio com o pensamento de amar o que não sou, de amar quem não tem nada de mim, de amar o seu ímpeto indomável de julgar o mundo. De amar esse alheamento de mim que em nada me diz respeito. De amar a força com que você defende as piores opiniões - o preconceito, o radicalismo, a hipocrisia. De amar, talvez, no fundo, o meu inconformismo quanto a quem você é, aceitando, no fundo, e, mesmo, desejando: que você nunca seja quem eu quero que seja.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
no vão do seio daquela mulher
há de brotar um galho
um tronco
um ninho
uma coisa que abrigue
o desamparo desse mundo
uma coisa que tenha
voz e silêncio
uma coisa que diga
-e que não é palavra-
que daquele vão de peito
há de brotar
o abraço do mundo
porque a margem
é a ponta do que se converte
é a vontade maior
de revolver em concha
o espiral ambíguo
da vida retorcida
da vida cambalhoteada
da vida que se recolhe
para se abrir
o vão do peito
é um lugar pequeno
onde cabe o mundo todo
das coisas desreunidas
dos seres de toda espécie
há de brotar um galho
um tronco
um ninho
uma coisa que abrigue
o desamparo desse mundo
uma coisa que tenha
voz e silêncio
uma coisa que diga
-e que não é palavra-
que daquele vão de peito
há de brotar
o abraço do mundo
porque a margem
é a ponta do que se converte
é a vontade maior
de revolver em concha
o espiral ambíguo
da vida retorcida
da vida cambalhoteada
da vida que se recolhe
para se abrir
o vão do peito
é um lugar pequeno
onde cabe o mundo todo
das coisas desreunidas
dos seres de toda espécie
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
as if we were young forever
pensei assim
e vi campos se embaçando na velocidade que você impunha
(é você quem faz o tempo)
e as mãos de outras namoradas de outros rapazes bonitos dançando no vento da janela
-a minha mão
eu vi o sol na estrada e deu vontade de nuvem, coisa flutuante, prestes a se desmanchar
enquanto a gente era para sempre
pensei assim
e vi campos se embaçando na velocidade que você impunha
(é você quem faz o tempo)
e as mãos de outras namoradas de outros rapazes bonitos dançando no vento da janela
-a minha mão
eu vi o sol na estrada e deu vontade de nuvem, coisa flutuante, prestes a se desmanchar
enquanto a gente era para sempre
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
insustentável
parece que serei sempre sabina, nua, pernas abertas sobre o espelho, chapéu-coco na cabeça. sabina com o coração de teresa.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Amanheci ainda tomada pela noite de ontem. O coração amolecido, pedindo outra dose da tua inconsequência, o corpo todo entregue a você que não estava aqui. Repassando a noite de ontem, percebi que mais dolora que a mágoa cinza que eu cultivara era o desejo de que qualquer coisa em relação a você perdurasse. Pela primeira vez em muito tempo eu não soube o que dizer, quando você me perguntou se eu queria que você sumisse, que deixasse de me procurar. Tive medo de não te ter de maneira mais definitiva da que não te tenho. Quando me perguntou, quase em tom de ameaça, eu via, sem ver, tudo branco, ou negro, em volta. E foi assim que por uns segundos fui revel. Inquieta, comecei a falar disparates. É bem assim quando eu perco a razão ou quando quero dizer coisas tão mais fundas que tenho medo de dizer e de sentir e de pensar. Mas você fez o que eu quero que você faça quando eu falar em desatinos, que você me ignore e que mande que eu me cale ou que fique bem bronco e me corte com sua aspereza. (Minha loucura não é menor que a sua, só tem o ímpeto de ser mais explícita com mais frequência. Minha loucura tem raras oportunidades de buscar amparo, e você que também é parte dessa minha loucura, faz com que eu me permita, ou não consiga me controlar, o que é bem diferente. Eu digo loucura, mas deve ter outro nome.)
Eu me pergunto se o amor pode começar de um erro, se o amor pode nascer deste jeito torto nosso. E me pergunto se dentro da gente onde mora o amor? Porque quando suas mãos decisas me tocam, tantas partes de mim se perguntam se isso é um ensaio do que possa vir a ser o amor, se isso é uma promessa leviana de que você me quererá por muitos outros dias mais, ou se isso é apenas um reclame qualquer imediato das suas mãos. Você não sabe a gravidade do seu gesto. Não sabe que quando me vem com seus braços quase desavisados sobre mim, eu sofro, me esquivo e desejo que não desista dessa luta, que quero que brigue comigo por um espaço a mais do seu corpo no meu, que quero que me queira sem dúvida. E isso vai além do toque.
A noite de ontem me fez sentir saudade da sua casa, de lavar a louça enquanto você toma banho e de escolher a camisa que você vai usar. De reprimir todo o cuidado que eu queria dedicar a você. De olhar as fotos nos porta-retratos, de não me cansar de desvendar as fotos, e pensar que o amor dos seus pais poderia ser o nosso amor. De pensar que seu pai era bonito e que devia ter sido um homem melhor do que você. De perguntar: qual teria sido o som do teu riso, Maria, o timbre da tua voz? De acreditar que eu era forte o bastante para enfrentar o mundo com você - a doença, a falência, o desemprego. De querer ser tudo o que eu posso ser.
Mas você vai embora, e eu não sei tanta coisa.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Pé-direito alto em descontínuo VII
Emiliana agora deu para ficar vigiando o muro. O tempo todo tenho que monitorá-la para verificar se tem cumprido suas funções. A negra velha diz que tem visto homens pulando o muro, vultos na varanda, que tem ouvido panelas caindo no telhado. Essa criada já deu o que tinha que dar. Está ficando louca, esquizofrênica. João diz que devemos ser compreensivos, mas o fato é que não devo nada, além do ordenado, à velha louca. Nunca fez os serviços da maneira que instruí, agora então, que vê coisas, é que não vai mesmo cumprir suas tarefas. João adia uma solução. A criada anda esquecida, chorosa, perguntando por gente há tempos morta, recordando acontecimentos da infância, e eu não sou de me envolver com as lamúrias dos outros, muito menos das serviçais. Não compartilho as dores e não sei oferecer conforto.
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Emiliana me faz pensar que a vida toda eu passei maquinando como me livrar das pessoas. Nunca de João.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
você vem a mim porque eu vejo a verdade das coisas. e as pessoas que veem a verdade assim é como se compartilhassem um segredo, como se fossem ligadas por um elo místico que os permite olhar para a coisa e ver a sua natureza revelada, e depois olharem-se uns aos outros sabendo-se terem chegado àquele entendimento.
mas o que eu quero é o delírio, a alucinação. não quero ver tanta verdade no que vejo. quero vendas e fumaça, poder fingir que ignoro tudo e que sou mais descansada dessa estúpida lucidez.
eu chego à verdade, mas não é a ela que busco. as verdades a que chego, eu quero transpor.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
"i'm building memories of things we have not said
full is not heavy as empty not nearly, my love
not nearly, my love, not nearly"
hoje pintei as unhas de uma cor que você não iria gostar. um púrpura escuro, urbano. muito diferente do clarinho que você gostava, aquela cor que não dizia nada. a primeira vez que você reparou nas minhas unhas, eu as tinha deixado de roer, eu estava orgulhosa. mas na mesa do botequim, você disse: bonito, unhas vermelhas descascadas! não sei se com esse comentário você queria que eu me sentisse uma puta ou uma relaxada (logo você que nem pente em casa tinha), mas me entristeceu menos a reprovação que a falta de reconhecimento. por que mesmo estou falando isso? ah, sim. também me pintei. sombra perolada nos olhos, delineador bem marcado, três camadas de rímel. vesti minha saia verde longa brilhosa, uma blusa tomara-que-caia branca, um colar bem grande, um bracelete no pulso esquerdo (que de tão fino só se prendia já quase no cotovelo), os lábios de um batom rosa queimado, mousse e laquê nos cabelos e sandália de salto dourada. o cheiro do mousse e do laquê me lembram a noite. meu perfume, também. mas nem cheguei a tocar no frasco porque já é tarde e logo tenho que dormir, o perfume me agitaria. acho que as noites são sempre a memória de outras noites. elas não existem sozinhas. as manhãs, não. as manhãs são renovadas, são oportunidades, esperanças. as noites são o que resta - do que se tem, do que se é, e do que ainda se espera. estou bonita. queria que você visse como continuo magra e ainda mais bonita. queria que visse os novos penteados que aprendi. e que dissesse que uso muita maquiagem, que sou muito solene, que sou demasiado conservadora, que sou ultrapassada, que vivo em uma bolha isolada da verdade do mundo, que sou infantil e submissa. tenho sentido muita falta de ser ferida por você. porque quando você me feria, eu me sentia viva, eu sentia meu coração bater forte no peito, eu chorava e chorava e espirraçava dizendo que você era o sem razão. eu não deixei de acreditar nisso, apenas sinto falta de você discordando, me desafiando, me ferindo demais, querendo me ferir, porque talvez, no fundo - assim imaginei - essa fosse tua maneira de me alcançar. porque, se em um momento estávamos distantes e no outro nos dávamos as mãos e nos enfiávamos os corpos um no outro, isso não bastava. nunca basta, quando a gente ama. então é que hoje eu me sento em frente à tv, eu vejo as notícias, eu refaço as minhas censuras ao teu trabalho, ao teu modo de vida, à tua ideologia. espero tuas críticas de volta, já me são previsíveis. imagino detalhes do teu dia. fatos sobre o motorista, sobre o restaurante, sobre o chefe, sobre os amigos. o que dói mais: eu sinto o cheiro do sabonete lux com que nos banhávamos. eu sinto o cheiro dos teus lençóis, que mesclavam o cheiro do sabão em pó da tua velha máquina de lavar, com teu suor, com o cheiro do cigarro e do teu sexo. também do meu sexo, talvez. acho que o olfato é o sentido mais próximo do amor. se, por hipótese, não houvesse teu cheiro, o cheiro da tua casa, daqueles móveis antigos aos pedaços, do jantar sendo preparado na vizinhança, do teu sexo nos lençóis, do teu sexo na tua samba-canção, o cheiro adocicado do teu sexo pela casa inteira, o cheiro dos teus cabelos desordenados enquanto fazias festa nos meus peitos (e aqui se torna mais perigoso, porque começo a falar na segunda do singular, como naquele tempo), eu pudesse te esquecer ou nem mesmo tivesse chegado a te amar. eu sei, você não merece sequer a lembrança que guardo do teu cheiro, sequer a lembrança das coisas maiores ou menores. mas eu não deixo de me ferir enquanto tu te afastas, amas outras, somes, somes. porque me ferir é como ter você, tal como naqueles tempos ou novamente. e eu já deixo de me perguntar se quero que voltes (não quero), já deixo de me alertar o quanto foste me danoso, apenas mantenho-me ferindo a mim. não é uma dor, entenda, algo estático que se solidifica, mas sim algo que oscila, muda de intensidade, me deixa dormente, latejante, e me faz arder de novo. também não chega a ser uma doença, apesar de grave, muito grave. é tão somente uma medida íntima, muito íntima. um estranho mecanismo que encontrei para ser menos só.
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