Nocturnas Horas
sobre o tempo
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
insustentável
parece que serei sempre sabina, nua, pernas abertas sobre o espelho, chapéu-coco na cabeça. sabina com o coração de teresa.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Amanheci ainda tomada pela noite de ontem. O coração amolecido, pedindo outra dose da tua inconsequência, o corpo todo entregue a você que não estava aqui. Repassando a noite de ontem, percebi que mais dolora que a mágoa cinza que eu cultivara era o desejo de que qualquer coisa em relação a você perdurasse. Pela primeira vez em muito tempo eu não soube o que dizer, quando você me perguntou se eu queria que você sumisse, que deixasse de me procurar. Tive medo de não te ter de maneira mais definitiva da que não te tenho. Quando me perguntou, quase em tom de ameaça, eu via, sem ver, tudo branco, ou negro, em volta. E foi assim que por uns segundos fui revel. Inquieta, comecei a falar disparates. É bem assim quando eu perco a razão ou quando quero dizer coisas tão mais fundas que tenho medo de dizer e de sentir e de pensar. Mas você fez o que eu quero que você faça quando eu falar em desatinos, que você me ignore e que mande que eu me cale ou que fique bem bronco e me corte com sua aspereza. (Minha loucura não é menor que a sua, só tem o ímpeto de ser mais explícita com mais frequência. Minha loucura tem raras oportunidades de buscar amparo, e você que também é parte dessa minha loucura, faz com que eu me permita, ou não consiga me controlar, o que é bem diferente. Eu digo loucura, mas deve ter outro nome.)
Eu me pergunto se o amor pode começar de um erro, se o amor pode nascer deste jeito torto nosso. E me pergunto se dentro da gente onde mora o amor? Porque quando suas mãos decisas me tocam, tantas partes de mim se perguntam se isso é um ensaio do que possa vir a ser o amor, se isso é uma promessa leviana de que você me quererá por muitos outros dias mais, ou se isso é apenas um reclame qualquer imediato das suas mãos. Você não sabe a gravidade do seu gesto. Não sabe que quando me vem com seus braços quase desavisados sobre mim, eu sofro, me esquivo e desejo que não desista dessa luta, que quero que brigue comigo por um espaço a mais do seu corpo no meu, que quero que me queira sem dúvida. E isso vai além do toque.
A noite de ontem me fez sentir saudade da sua casa, de lavar a louça enquanto você toma banho e de escolher a camisa que você vai usar. De reprimir todo o cuidado que eu queria dedicar a você. De olhar as fotos nos porta-retratos, de não me cansar de desvendar as fotos, e pensar que o amor dos seus pais poderia ser o nosso amor. De pensar que seu pai era bonito e que devia ter sido um homem melhor do que você. De perguntar: qual teria sido o som do teu riso, Maria, o timbre da tua voz? De acreditar que eu era forte o bastante para enfrentar o mundo com você - a doença, a falência, o desemprego. De querer ser tudo o que eu posso ser.
Mas você vai embora, e eu não sei tanta coisa.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Pé-direito alto em descontínuo VII
Emiliana agora deu para ficar vigiando o muro. O tempo todo tenho que monitorá-la para verificar se tem cumprido suas funções. A negra velha diz que tem visto homens pulando o muro, vultos na varanda, que tem ouvido panelas caindo no telhado. Essa criada já deu o que tinha que dar. Está ficando louca, esquizofrênica. João diz que devemos ser compreensivos, mas o fato é que não devo nada, além do ordenado, à velha louca. Nunca fez os serviços da maneira que instruí, agora então, que vê coisas, é que não vai mesmo cumprir suas tarefas. João adia uma solução. A criada anda esquecida, chorosa, perguntando por gente há tempos morta, recordando acontecimentos da infância, e eu não sou de me envolver com as lamúrias dos outros, muito menos das serviçais. Não compartilho as dores e não sei oferecer conforto.
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Emiliana me faz pensar que a vida toda eu passei maquinando como me livrar das pessoas. Nunca de João.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
você vem a mim porque eu vejo a verdade das coisas. e as pessoas que veem a verdade assim é como se compartilhassem um segredo, como se fossem ligadas por um elo místico que os permite olhar para a coisa e ver a sua natureza revelada, e depois olharem-se uns aos outros sabendo-se terem chegado àquele entendimento.
mas o que eu quero é o delírio, a alucinação. não quero ver tanta verdade no que vejo. quero vendas e fumaça, poder fingir que ignoro tudo e que sou mais descansada dessa estúpida lucidez.
eu chego à verdade, mas não é a ela que busco. as verdades a que chego, eu quero transpor.
domingo, 20 de março de 2011
cartas litorâneas III
a praia assim em dias nublados, em tons de cinza e marfim, é mais desnuda. nos dias de sol, há muitas cores, que nos distraem da verdade. em dias como este, a verdade nos parece inadiável.
seria mais excitante se você me fosse um estranho total e não soubesse nada sobre mim. porque cada coisa que se sabe sobre mim é tudo, porque carrego tudo o que sou em tudo o que sou - dos pedaços de unha cortados, dos cílios que me despencam dos olhos, ao poço remoto no coração.
está e sempre esteve tudo exposto. só que antes não havia seus olhos sobre isto o que sou, sobre este tudo de mim à mostra. então, não sei se devo instalar cortinas em volta de toda esta coisa revelada ou se devo te apontar e narrar esse tudo, me desculpando, me justificando ou me enobrecendo.
estamos lado a lado, de frente para o mar. de tempos em tempos, entre um silêncio e outro, olho arredia, de soslaio, para teu rosto, desço os olhos para teus braços e tuas pernas e Meu Deus, como você existe assim existindo e ponto, sem dúvidas, assim matéria, coisa certa, edificado. penso e desvio os olhos, de você para o mar, do mar para os seus braços pernas rosto, areia, céu, tudo muito rápido, que meu pensamento não tem linha, é aparição desordenada, que eu não quero que você perceba que eu te olho assim, com tanta incompreensão, que eu queria que fosse você quem olha e deseja e treme. mas você é firme, ancorado na areia. e eu querendo que eu quisesse te evitar, e você tranquilo pensando em qualquer coisa sem tanto pensamento, qualquer coisa menos emaranhada e fácil que eu.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
depois de muito adiar o espelho, enfrento-o. a velha cena de estar em frente ao espelho. tão corriqueira e agora tão dolorosa.
eu não preciso investigar meus olhos, para saber o que há neles. tudo em volta denuncia. a pele sebosa, os cravos evidentes, a sobrancelha extensa, mãos ressecadas, rachaduras nos pés, escoliose e muitos pelos. estou sempre nua e por ser reparada de um erro originário que também é o que sou.
entro no banho, olho para baixo e tudo o que vejo é um tapete de plástico limoso nos sulcos, endométrio escorrendo sobre as pernas e chegando ao ralo, e eu torcendo que isso fosse logo, e eu sentindo essa possibilidade de vida que se esvai tão corriqueira e dolorosa rumo a tristes galerias sanitárias, e eu pensando que você poderia ter sido aquele que me desgraçou com um filho, aquele que estragou tudo na minha vida, aquele que como um cão raivoso me arrancou um membro, aquele que ainda me fizesse chorar. mas você não chega a ser nem um motivo - um alvo onde eu possa destinar as pedras que o meu coração dispara.
alguém disse a alma é um vício (e era verdadeiro, porque era bonito). a solidão também.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
"A chair is still a chair, even when there's no one sittin' there
But a chair is not a house and a house is not a home
When there's no one there to hold you tight
And no one there you can kiss goodnight"
Eu hoje fiz uma coleção de coisas bonitas. Entre papéis, músicas e fotografias, o desejo era um só: recolher o melhor do mundo, pra te dar. E não era um projeto pretensioso, tampouco simplista. Te escrevi uns versinhos sem rima, no estilo poesia concreta. Por exemplo: ÀS VEZES AS PALAVRAS ESCORREM FEITO SANGUE OU CHUVA (na vertical, em declínio) NOUTRAS VEZES ESCALAM A NUCA SEM NADA DIZER (de baixo para cima, as letras 'decrescentes' , dá vertigem de ler), num filete de papel vergé que sobrou dos convites que eu mesma fiz para meu aniversário de 15 anos. Experimentei uns perfumes antigos, que quase não uso, porque me provocam náuseas. Queria um frangrância que representasse um traço meu. Assim, que quando eu te abraçasse, eu deixasse um pouco do meu perfume nos teus braços, na tua barba, na gola da tua camisa. Tenho estudado muito. Sobre? Ah, sobre decoração, tenho lido guias de etiqueta, coquetéis, drinks, arranjos de flores, culinária.Tenho construído casas sem erguer paredes. Ainda. Só falta você chegar.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
sometimes a man gets carried away
when he feels like he should be having his fun
and much too blind to see the damage he's done
Não é que estivesses demasiado envolvido para voltar atrás, é que por algum outro motivo tu resistias a me deixar. E assim se passaram as viagens, as longas conversas, as noites, o constrangimento. Jamais nos sentimos totalmente à vontade na presença do outro. Eu preocupada em continuar sendo eu mesma, e não aquela que corresponderia às tuas expectativas. Tu preocupado com o ponto a que as coisas haviam chegado. O ponto a que tu havias conduzido essa tragédia anunciada, essa tragédia sem dor, esse mormaço de horas sobre nossas cabeças.
maybe you're too young
to keep good love from going wrong
Tu devias ouvir Jeff Buckley, tu devias ouvir Lover, you should've come over, agora que, penso eu, já sabes traduzir.
so i'll wait for you, and i'll burn
when he feels like he should be having his fun
and much too blind to see the damage he's done
Não é que estivesses demasiado envolvido para voltar atrás, é que por algum outro motivo tu resistias a me deixar. E assim se passaram as viagens, as longas conversas, as noites, o constrangimento. Jamais nos sentimos totalmente à vontade na presença do outro. Eu preocupada em continuar sendo eu mesma, e não aquela que corresponderia às tuas expectativas. Tu preocupado com o ponto a que as coisas haviam chegado. O ponto a que tu havias conduzido essa tragédia anunciada, essa tragédia sem dor, esse mormaço de horas sobre nossas cabeças.
maybe you're too young
to keep good love from going wrong
Tu devias ouvir Jeff Buckley, tu devias ouvir Lover, you should've come over, agora que, penso eu, já sabes traduzir.
so i'll wait for you, and i'll burn
sábado, 17 de julho de 2010
Pé-direito alto em descontínuo VI
A criada voltou a enxergar. Não sei bem como isso se deu, mas depois de quatro dias cega, recuperou a visão. Confesso que me senti aliviada, menos pela visão em si do que pelas providências que eu deveria tomar caso a cegueira permanecesse. João fez uma festa, correu a casa carregando a serviçal nos braços. Os olhos das outras brilhavam um brilho que não era apenas de alegria, o que só me fez confirmar que elas de fato nutrem uma paixão miserável por João. São gente sem rumo, que veio parar aqui. Por mim, elas não são necessárias, ainda tenho disposição para cuidar das coisas da casa. Mas João insiste, diz que é para eu me poupar, e diz que precisamos ajudá-las, também. O coração desse homem.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
"Eis aqui
bicicleta, planta, céu,
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar"
eu não quero o teu olhar voltado para mim, eu quero poder te observar sem interferências, te assistir enquanto assistes ao jornal, ou enquanto escreves tuas contas.
tu não sabes o que é estar nos braços de um homem, percorrer o corpo de um homem como quem deseja chegar ao outro lado. ao outro lado de quê? aonde? talvez ao outro lado do tempo-espaço, onde as coisas não são como são,
me transpor do colapso do corpo ao estupor do despensamento. é como saber teu endereço. um oceano nu, minhas pernas sem sol, teu rosto viril. o momento vai ficando antigo, vejo nossos filhos em super8 na piscina da mansão dos salles, as viagens internacionais e as tardes em shoping centers.
penso no metrô domingo à noite, na solidão dessas coisas, da cidade, do centro da cidade numa tarde de domingo e é tudo tão desamparado e eu não posso ser mãe das coisas, que coisa não tem parentesco nem umbigo onde eu possa enfiar um cano e dizer que pari. eu quero que a minha escrita não considere a ti nem tua temática remanescente, para ser fluida. eu quero que a minha escrita não revele nem diga o que eu quero tanto dizer e o que eu quero que não saibas.
não vou mencionar o amor de ontem e vou cuidar para que. não sei.
quando teu olhar mais grave me acena o homem que és, eu não sei o que em teu olhar te esconde ou te revela. e eu não gosto que sorrias quando me olhas em silêncio, porque não sei a mensagem que teu sorriso leva ou trai. enquanto me olhas no silêncio, eu no mesmo silêncio peço que não nos vejamos novamente, que não me queiras nos próximos dias, que abandonemos a frequência dos encontros. peço porque a cada vez que nos vemos eu te vejo mais bonito, me acomodo melhor nos teus ombros, e começo a não saber dizer.
me transpor do colapso do corpo ao estupor do despensamento. é como saber teu endereço. um oceano nu, minhas pernas sem sol, teu rosto viril. o momento vai ficando antigo, vejo nossos filhos em super8 na piscina da mansão dos salles, as viagens internacionais e as tardes em shoping centers.
penso no metrô domingo à noite, na solidão dessas coisas, da cidade, do centro da cidade numa tarde de domingo e é tudo tão desamparado e eu não posso ser mãe das coisas, que coisa não tem parentesco nem umbigo onde eu possa enfiar um cano e dizer que pari. eu quero que a minha escrita não considere a ti nem tua temática remanescente, para ser fluida. eu quero que a minha escrita não revele nem diga o que eu quero tanto dizer e o que eu quero que não saibas.
não vou mencionar o amor de ontem e vou cuidar para que. não sei.
quando teu olhar mais grave me acena o homem que és, eu não sei o que em teu olhar te esconde ou te revela. e eu não gosto que sorrias quando me olhas em silêncio, porque não sei a mensagem que teu sorriso leva ou trai. enquanto me olhas no silêncio, eu no mesmo silêncio peço que não nos vejamos novamente, que não me queiras nos próximos dias, que abandonemos a frequência dos encontros. peço porque a cada vez que nos vemos eu te vejo mais bonito, me acomodo melhor nos teus ombros, e começo a não saber dizer.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Pé-direito alto em descontínuo V
Essas criadas não tem jeito. Ontem pela manhã, uma delas, a mais velha, não sei que asneira fez ao manejar a panela de pressão ao fogo, que a fez explodir, emporcalhando toda a cozinha. E o pior: desde então está cega. Os médicos disseram que a anta pode recuperar a visão em alguns dias ou nunca mais. De que vale a opinião dos médicos? Nunca sabem responder nada precisamente. Tudo o que fazem é um exercício de adivinhação. Como a serviçal não tem família, João achou por bem acomodarmo-na em nossa casa. Jamais admiti que as criadas dormissem aqui porque acho que elas já se interam demais de nossas dias para que também nos testemunhem as noites. Além do mais, o cheiro delas me provoca náuseas. Muito bem, ela dorme no quarto dos fundos. Uma suíte bastante razoável, pois é preciso que ela tenha acesso fácil ao banheiro. João se preocupa, se sente culpado. Como?! A incompetente não soube abrir uma panela e João se martiriza. Estou pensando no que fazer, onde despejá-la, caso a inútil não volte a enxergar. Sempre fiz questão de repetir diariamente todos os cuidados que elas devem ter ao cozinhar, ao limpar a casa, ao se higienizar, ao caminhar à rua. Não me ouvem, preferem a própria ignorância. Pois foi em uma dessas que a outra se queimou, ficou cega e manchou todas as paredes e o teto da cozinha.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Como imaginar que a manhã despretenciosa de verão, em que ensaiávamos um amor rasteiro, pudesse se transformar em uma coisa dura como esta? O sol se expandia em meio a muita gente, por todo o canto, fazendo um dia tão bonito, mas tão bonito, que afrontava todas as minhas previsões. Amanheceste enevoado, sisudo, contrariado com as urgências não satisfeitas na noite anterior. Me chamaste às escondidas. Dirigiste ensimesmado, e com algum esforço, na estrada até o mar, trocamos uma meia-dúzia de palavras. Eu não fazia questão de mais que isso, porque o dia estava bonito e em dias assim tudo é uma chance para ser eternamente feliz sem deixar de sentir o outro lado das coisas. E de fato, eu não deixava de pensar nas implicações de cada gesto, daquela saída, daquela viagem, daquela fuga.
Não sei nadar. Fui criada na doutrina do medo das coisas absurdamente possíveis. Décadas de medo me antecederam a existência, de modo que minha estirpe luta para disperçá-lo, mas eu, particularmente, não sou tão empenhada nesta tarefa de vencer o medo de morrer em um instante de absurdo, em uma queda da árvore, em uma asfixia provocada por cócegas. E porque o mar não tem cabelo eu me agarrei a ti. É engraçado pensar que saber nadar teria feito as coisas diferentes. Não teria.
Não sei nadar. Fui criada na doutrina do medo das coisas absurdamente possíveis. Décadas de medo me antecederam a existência, de modo que minha estirpe luta para disperçá-lo, mas eu, particularmente, não sou tão empenhada nesta tarefa de vencer o medo de morrer em um instante de absurdo, em uma queda da árvore, em uma asfixia provocada por cócegas. E porque o mar não tem cabelo eu me agarrei a ti. É engraçado pensar que saber nadar teria feito as coisas diferentes. Não teria.
Tu conduzias teu jetski , eu supunha, como tantos outros jovenzinhos conduziram suas lambretas em cidades remotas, em bandos, quando o cinema era novidade e quando o amor era um mistério que vivia mais próximo dos corações adolescentes: tu conduzias com paixão pela liberdade. De repente, estávamos em Beverly Hills, de repente eu era a garota do seriado americano, de repente tu eras mais bonito e mais forte do que eras, de repente tocava The Kooks, e de repente meu peito era o mundo.
Teus planos eram outros, mas acabamos parando numa ilha sem brilho, onde conversamos por um tempo. Falamos sobre relacionamentos-anteriores-projetos-futuros-e-vida-profissional. Eu admirava teu jeito de conciliar seriedade com bom humor, mas me incomodava tua maneira de gesticular excessivamente e mais ainda: teu olhar avaliador sobre cada frase minha. Talvez, eu me orgulhasse, na verdade, era: 1- da lucidez com que eu captava cada uma dessas e de tantas outras impressões a teu respeito; 2 - da minha inteligência na sutileza dessa percepção; 3 - do meu comedimento ao reagir às revelações a que chegava.
A aventura daquela manhã quase me doeu de uma alegria desvairada e bêbada, enquanto tu cada vez mais veloz atravessavas meus mares de medo. A cada mil metros que tu conduzias à frente, mil corações eu fiz pulsar. Eu não tinha medo de morrer, medo de amar, medo de não existir e eu sorria e gritava e te beijava e desafiava meus medos tolos. Tudo se resumia à tua condução sedenta de espaço.
No caminho, tu viste tartarugas e outros animais, mas eu estava fixada em Fernão Capelo Gaivota, que nos acompanhou durante todo o percurso, nos assistindo, se exibindo e me ensinando sobre a importância da beleza no vôo.
Naquela manhã, parecia que descobrias um novo continente. Eras jovem, forte, seguro e voraz. Tinhas uma fome farta vida afora.
Ainda não sei quem és. Preciso abandonar aqueles dias.
domingo, 13 de junho de 2010
Reconstruir o passado é uma forma de dar sentido à vida. Os mortos, os arrependimentos, a embriaguez das noites, os olhares dos outros, os lugares por que passamos - nós somos todos esses pedaços de vida estragada, reconduzida, afundada, dignificada e persistente. Não morremos nem depois da morte, porque o tempo é vadio para quem fica e às vezes se esquece de passar. (O tempo não dá vida nem faz cessar as coisas. Mas o quê eu não sei.)
Teu peito aberto é escudo para a dor. Alguns de nós se arriscam movidos pelo medo. Eu mesma tenho uma vertigem incurável de viver. Mas ainda não sei se foste meu medo ou minha coragem.
Não morri por ti. Nem por um segundo. Já morri por outros homens, e por pequenas coisas, também. Não por ti.
Julgo que entendes muito bem de perder e ganhar. Precisas, agora, aprender a permanecer. Tens casa, bens, sucesso e conforto. Mas não tens a quem pertencer. E quero que entendas: pertencer é preciso, digam o que quiserem os outros.
Desconfio que minhas verdades sejam imprecisas ou equivocadas, porém não posso me livrar do que sou agora. Não é justo que eu pretenda ser além do que este corpo jovem e fatigado generosamente me oferece, nesta hora em que te escrevo.
Sim, minhas forças são tortas, por isso me desdobro em cuidados para: 1- manter-me inteira; 2- mantê-las. E se te olho com olhos que não dizem nada, é que a tempestade se anuncia neles e tu não notaste. Teus olhos de lince, que alcançam mares e horizontes, não foram capazes de ver o mais imediato dos meus desejos.
Enxergas muito longe, mas precisas aprender a ver de perto, e dentro, no além da pele, no desconforto do pensamento; dentro desta caverna escura onde se acumulam e se revolvem em movimentos incertos poeira e sangue (desse buraco estranho a que chamam coração).
O que trago comigo não é um segredo, é uma ferida aberta, um rasgo curioso, declarado, pedindo compreensão. O que peço é muito pouco, quase nada. Sou pobre de história e de futuro. Tenho as mãos vazias porque não quero possuir nem gastar, porque prefiro o movimento.
Não sou mais triste. Isso era quando eu não sabia das coisas que hoje sei. Sabê-las, hoje, já me basta. Os passos à frente não são duros nem titubeantes. São francos. Sofrimento e alegria não se excluem nem caminham juntos. Se trançam, se emaranham e se fundem. Tudo o mais é corpo de fundo, que a gente carrega até encontrar mais substância.
Foi assim contigo. Te carreguei pesado no esôfago - bola de chumbo gravitacional. Tua aura metálica condensada no meu baixo-esôfago. Tu não tinhas forma nem órgãos nem voz nem corpo. Somente o peso.
domingo, 23 de maio de 2010
"eu espero por acontecimentos
mas quando anoitece
é festa no outro apartamento"
você fica aí, olhando pela janela como se soubesse o momento exato em que as coisas acontecem. eu continuo vivendo essa vida como se não houvesse outra vida possível. me agarro a você, por falta de esperança em algo mais.
você com essas costas abertas contra a luz do domingo, vivendo como se eu não existisse. dentro de mim, esbraveja um mundo de coisas impedidas.
eu não consigo te alcançar. os passos até a janela, até tuas costas, são difíceis. é difícil te alcançar. é triste, é doloroso, é solitário.
você sorri para os amigos, promove festas, sorri mais e conta histórias, se embriaga. eu estou por perto, mas você não vê. você não vê este bicho miúdo que te espreita cheio de uma esperança cansada e torpe.
você envolve teus braços firmes nas minhas costas, me abraça um abraço seguro, mas seu sorriso ainda é de todos e a sala demora a se esvaziar.
tudo acaba, você está cansado, eu ainda te espero.
você fica olhando a janela, enquanto tantas coisas morrem deste lado do sofá.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
(escrito encontrado dentro do carta ao pai)
desfazer as malas ainda em viagem, trazer à tona o dia de amanhã - tudo isso era muito doloroso. tornava-se cada dia mais casta, não por uma escolha, mas por um desfalecimento tamanho dos sentidos, que só lhe restava ser assim - mobília, poeira e noite, luz acesa, casa sem voz. nos olhos tanta cegueira quanto lucidez. casa vazia. nada a espera. vinha-lhe a imagem do pai desmanchando o sorriso: de quantos dentes é feita a culpa? noite sem resposta. ensaio um discurso que lhe seja plausível, bem aparado, mas só o Pai tem a Razão. ensaio um sonho que o faça morrer menos e rezo para que não lhe atinjam. o desamparo, o desmazelo, essas horas de agora.
tu sabes que não me és apenas o sobrenome (o único), mas queria eu que tu não soubesses do que te faz entristecer e desmanchar teu sorriso gordo numa manhã de domingo.
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