às vezes, a gente pensa que está
prestes a chegar a um ninho seguro
e vem um mar em ressaca
e nos afasta da felicidade
nosso desejo é destroçado
e a paz é algo que só existe na distância
a vida vai
assozinhando a gente
sábado, 31 de outubro de 2015
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Certa feita, Daniel me disse que eu sempre dava a impressão de que não dizia tudo o que pensava. Passei a dizer mais coisas e Daniel me disse que eu era perigosa porque era honesta (como na música do U2). E agora, quando digo o que merece ser dito, as palavras viram cães ferozes e cavalos selvagens, sem quem possa domá-los. Parece violência mas é só verdade.
Augusto veio a minha porta
Aflito, disse que me amava
Me pediu em casamento
E disse algumas outras palavras,
bem decidido
Olhei bastante e muito atenta
Me demorei muito naqueles minutos
Silenciosa
Sem reação
Não reconheci em Augusto
o homem que amei
Eu letárgica
nada sentia
nem mesmo curiosidade
de saber o que havia lhe acontecido
ao longo de todo esse tempo
em que eu nada soube
É triste pensar
que um grande amor
mais ali na frente
logo depois
pode parecer
algo c o m p l e t a m e n t e dispensável
Aflito, disse que me amava
Me pediu em casamento
E disse algumas outras palavras,
bem decidido
Olhei bastante e muito atenta
Me demorei muito naqueles minutos
Silenciosa
Sem reação
Não reconheci em Augusto
o homem que amei
Eu letárgica
nada sentia
nem mesmo curiosidade
de saber o que havia lhe acontecido
ao longo de todo esse tempo
em que eu nada soube
É triste pensar
que um grande amor
mais ali na frente
logo depois
pode parecer
algo c o m p l e t a m e n t e dispensável
domingo, 13 de setembro de 2015
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
um dia acompanhei papai ao rio
fomos ao detran
papai atravessou a rua fora do sinal
e me deixou para trás
presidente vargas
eu criança fora da faixa
papai do outro lado
duas pistas entre nós
presidente vargas
e papai sem nem se dar conta
desde então
tem sido meu fado
correr perigos
acompanhar homens
que só sabem andar sozinhos
fomos ao detran
papai atravessou a rua fora do sinal
e me deixou para trás
presidente vargas
eu criança fora da faixa
papai do outro lado
duas pistas entre nós
presidente vargas
e papai sem nem se dar conta
desde então
tem sido meu fado
correr perigos
acompanhar homens
que só sabem andar sozinhos
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Pé-direito alto em descontínuo VIII
Voltávamos da cidade quando João disse que passaríamos para ver Madalena. Eu disse que não tinha paciência para Madalena, e João rebateu que Madalena era minha única irmã, e que em respeito à memória de meus pais deveríamos, ao menos de tempos em tempos, procurá-la. Eu disse que não era certo visitar os outros sem aviso, ainda mais na hora do almoço. Mas João sabia que Madalena não era de protocolos e não se incomodaria com nossa chegada inesperada. Ao contrário, Madalena se alegraria.
João inventa de ter paciência para pessoas com quem não tenho paciência. É uma forma de remendar minha frieza e minhas ausências. João é conciliador, compensa meus vícios com seus cuidados. Os outros reparam. Não me importo e faço até gosto. Que os outros vejam como eu e João nos compomos. Há entre certos casais combinações mudas que tramam e sustentam uma relação. Muitas coisas miúdas e mudas laçam nossos anos de união.
Bati o pé. Difamei Madalena. Esperneei, mesmo sabendo que seria inútil, porque João faz coisas contra minha vontade. Lá chegamos. À casa de Madalena, o muquifo em que ela transformou a herança que lhe coube de nossos pais. Tudo fora do lugar, Madalena é mesmo dada à desordem. João muito simpático, eu resistente. Eu sempre resistente a algo, a todo o momento. Não há um momento, meu Deus, na vida, em que eu não esteja resistindo a algo. Eu resistindo ao nojo que a casa me provocava. Madalena parecia não ver. Madalena era uma cega eufórica. Só bradava 'Que bom que vocês vieram, vocês nunca vêm, Olha, olha a tv que eu comprei, Olha, olha o computador novo, olha, Vocês não fazem ideia do que é essa tv, Bebeto está me ensinando a usar o Facebook no computador novo, postamos fotos do passeio de domingo, Olha como eu tô moderna, olha'.
Bebeto é o novo caso de Madalena. Um menino que ela colocou para dentro de casa. Mas gente, esse menino não tem família? Fiz que fiz vista grossa para aquele desaforo todo. Agora você vê, Madalena com um rapazinho recém saído da puberdade. Esse menino completou o científico, pelo menos? A tonta não vê que o que ele tem de músculos tem de aproveitador. Sem camisa, almoçando no sofá da sala, copo de refrigerante no chão. Prato Duralex, talheres com cabo de plástico. Mas onde foi que Madalena aprendeu ou aprendeu a admitir esses modos suburbanos?! Às vezes, eu penso que ainda bem que papai e mamãe já se foram para não testemunharem tamanha pouca vergonha. O gigolô é mais novo que Toninho. Madalena não enxerga que está velha e criando filho dos outros. 'Ah, fica, vai, vocês quase não vêm, Aproveitem, tem almoço, Hoje é dia da empregada, ela faz comida a mais, para congelar'.
'João, me tira agora daqui'. E João sorrindo, quase debochando 'A gente adora carne seca'.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Às vezes, me lembro da casa de G. Dos móveis despencando, do sofá-cama duro, do cheiro de cigarro, da janela que dava para um morro e um mato, para um oposto de cidade. Às vezes, me lembro da casa de D. Do cheiro do armário, da janela bem grande que ele quase nunca abria, dos móveis que trouxera da casa dos pais, de abraçar a mim mesma forte por dentro para não despedaçar quando encontrava um brinco, um batom ou uma jaqueta de outra mulher. Às vezes, me lembro da casa de B., do cheiro de material de construção, da cafeteira, da sanduicheira, do fogão, da máquina de lavar, do espelho do lado de fora do armário, de achar que estávamos estreando uma nova casa e uma nova vida.
Trago todas as casas em mim, e não tenho onde morar. Aonde vou, não demoro. Logo parto, logo desgarro. Lanço-me ao mundo, resiliente e indefinida, sem audácia ou ousadia, e ainda que o mundo seja apenas um município do interior. Assumo que o faço por ponderada valentia, mas temo ser sina. Aprendi a partir, aprendi a deixar casas, cheiros, armários, sonhos e rotinas. Não tenho onde morar, então caminho. Vou me acostumando a nunca mais querer ou precisar de uma casa para morar. Nada possuo, nem as casas que carrego comigo. Não há o que me represe. Periga eu esquecer como se fica, como se habita e como se cuida. E de tanto partir, não ter mais volta. Por sina, ou valentia.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
sábado, 5 de setembro de 2015
Ana
um dia
sonhou em ter um namorado
que lhe presenteasse com um par de patins
e a levasse para tomar sorvete na praça
Ana
nunca soube
no entanto sempre desconfiou
que o verdadeiro amor
era adolescente
Mas Ana cedo amadureceu
caíram em desuso os amores não consumados
e os homens a quem se entregou
foram todos
diferentes versões
de um mesmo
e imenso desastre
Ana não tem nojo dos casais que fazem
carícias escandalosas nas ruas à luz do dia
nem julga as meninas que sonham em se casar com seus namorados
porque Ana
que aprendera a viver sobre os escombros dos amores desmoronados
depois de tantos finais
não zomba do que aos outros parece ridículo
não apedreja o que aos outros é imoral
porque se ainda há ilusão, no mundo
se ainda há lascívia nas calçadas sob o sol do meio-dia
ainda a vida pulsa
e mesmo que os amores sejam sucessivos e incansáveis desastres,
apesar do desastre e maior que ele
há vida
os desastres são a ressaca dos sonhos
-o lamento pujante, inconformado, da perda
vencer o desastre requer vivê-lo
mas logo isso não é novo
e logo se aprende:
viver é algo
que se faz com insistência
um dia
sonhou em ter um namorado
que lhe presenteasse com um par de patins
e a levasse para tomar sorvete na praça
Ana
nunca soube
no entanto sempre desconfiou
que o verdadeiro amor
era adolescente
Mas Ana cedo amadureceu
caíram em desuso os amores não consumados
e os homens a quem se entregou
foram todos
diferentes versões
de um mesmo
e imenso desastre
Ana não tem nojo dos casais que fazem
carícias escandalosas nas ruas à luz do dia
nem julga as meninas que sonham em se casar com seus namorados
porque Ana
que aprendera a viver sobre os escombros dos amores desmoronados
depois de tantos finais
não zomba do que aos outros parece ridículo
não apedreja o que aos outros é imoral
porque se ainda há ilusão, no mundo
se ainda há lascívia nas calçadas sob o sol do meio-dia
ainda a vida pulsa
e mesmo que os amores sejam sucessivos e incansáveis desastres,
apesar do desastre e maior que ele
há vida
os desastres são a ressaca dos sonhos
-o lamento pujante, inconformado, da perda
vencer o desastre requer vivê-lo
mas logo isso não é novo
e logo se aprende:
viver é algo
que se faz com insistência
quarta-feira, 3 de junho de 2015
domingo, 19 de abril de 2015
a história das minhas paixões: construir uma embarcação, domar o mar, sozinha, em uma noite sem lua, vencendo as tempestades, chegar, exausta, aos pés de quem amo, e tímida e mansa não saber pedir o abraço que mereço receber.
"Sonhei que construía um barco
Sonhei que sabia o que fazia
e com este me lançava ao mar
uma noite sem lua
em que não se distinguia
água de céu
da negrura de um horizonte
que fundia terra com mar
a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade
Córsega
Córsega
Córsega
no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que fosse
meu barco chegava a teus pés
tantas noites de alto-mar
cavalgando tempestades
finalmente estou pronta para fincar
a âncora da vitória
a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade
Córsega
Córsega
Córsega
Córsega
no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que pudesse ser
depois de ter domado o mar
não sobra mais coragem
neste corpo exausto
tímida e mansa não sei pedir
o abraço que mereço receber"
"Sonhei que construía um barco
Sonhei que sabia o que fazia
e com este me lançava ao mar
uma noite sem lua
em que não se distinguia
água de céu
da negrura de um horizonte
que fundia terra com mar
a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade
Córsega
Córsega
Córsega
no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que fosse
meu barco chegava a teus pés
tantas noites de alto-mar
cavalgando tempestades
finalmente estou pronta para fincar
a âncora da vitória
a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade
Córsega
Córsega
Córsega
Córsega
no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que pudesse ser
depois de ter domado o mar
não sobra mais coragem
neste corpo exausto
tímida e mansa não sei pedir
o abraço que mereço receber"
sexta-feira, 17 de abril de 2015
volta, Binho
num guento mais abraçar travesseiro
tomar café feito por mim
não ter quem me espere quando eu saio do banho
sério, Binho, volta logo
num guento mais ter insônia
fritar bolinho a noite inteira
abraçando travesseiro
não ter quem esperar sair do banho
Binho, volta antes que eu quebre algum copo
que eu manche o piso,
que eu esqueça a torradeira ligada,
que eu bata o carro
Binho, volta,
eu tô ficando insana
o tempo não tem feito as coisas mais fáceis
e eu num guento mais abraçar travesseiro
num guento mais abraçar travesseiro
tomar café feito por mim
não ter quem me espere quando eu saio do banho
sério, Binho, volta logo
num guento mais ter insônia
fritar bolinho a noite inteira
abraçando travesseiro
não ter quem esperar sair do banho
Binho, volta antes que eu quebre algum copo
que eu manche o piso,
que eu esqueça a torradeira ligada,
que eu bata o carro
Binho, volta,
eu tô ficando insana
o tempo não tem feito as coisas mais fáceis
e eu num guento mais abraçar travesseiro
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Prosopopeia
1) As paredes da casa espiam a minha solidão. Tecem uma conversa muda sobre como a casa não faz sentido sem Bruno.
2) O sofá da casa se compadeceu. Abraçou-me solidário e desinteressado, ciente de que era um abraço incompleto, porque não era o abraço de Bruno.
3) As janelas estremeceram porque o vento gritava. O vento vinha me dar um recado, arrebatar-me na mesma entoada do desassossego que Bruno deixara, contar-me que um pouco do mundo partilhava da mesma inquietude.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Ana começara a escrever um livro. Intitulara-o Nove formas de ser só. Sim. Ser só tem graduações e maneiras. É uma ciência, exige procedimento. Ana estava disposta a destrinchar as formas de ser só. Por enquanto, só tinha o título, e a solidão. E também uma amigdalite que surgira há dois dias. Mais uma de muitas, o que obrigara Ana a aprender a se curar. Adoecer, tratar-se e curar-se só é de um empoderamento imenso. Da ciência rústica à ciência refinada de ser só: Ana desconfiava que sabia e aprenderia muito.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
fazia tempo que Clara não sabia o que era ter um homem doce. Clara tinha estabelecido que se apegaria a aspectos aleatórios, nos homens. sabia qual seria o fim da história se passasse a vê-los como homens-homens, então se distraía com qualquer coisa que elegia neles para sustentar o resto do que eles eram sem atentar para o resto do que eram: a beleza, as tiradas bem-humoradas, os músculos, os esportes que praticavam, o gosto musical, as conquistas profissionais. os homens seriam um objeto para seu deleite: corpo, entretenimento, admiração estética, pretexto literário.
Bruno era lindo. lindo. Clara sabia que a beleza, muitas vezes, é só uma promessa. não apenas uma promessa que não se cumpre, mas uma promessa que se revela o oposto. por isso, preferia que a promessa continuasse promessa. Clara conhecia bem a tragédia que viria depois da beleza, depois dos músculos, depois das tiradas de humor, depois do gosto musical, depois dos esportes que praticavam e depois das conquistas profissionais. Clara previa, a todo o tempo, a miséria que se anunciava depois do encantamento, e zelava para não ultrapassar jamais o encantamento. aprendera a deixar os homens e a deixar que os homens a deixassem. permitia-se tê-los, permitia-lhes que a tivessem. vinha se permitindo mais, e vinha sendo menos permissiva. Clara havia tomado as rédeas de si. os homens a tinham por breves momentos, mas era somente Clara a dona de seus desígnios. o medo dos homens era o que mantinha em Clara uma espécie de integridade protetiva, uma espécie de sustentação emocional, e Bruno a desmontou, porque era carinhoso. e doce. sutil, pacífico. Clara era um bloco de caramelo duro, que resiste à força, mas não ao calor. Clara era dura, e doce.
Bruno saiu do banho e foi beijar Clara. é bom o beijo de quando se sai do banho. a gente sai do banho refrescado, novo. e o beijo fica assim, também. fica até mais puro. Bruno fazia Clara chegar mais perto da própria pureza. uma pureza abandonada, descrente. Bruno era perigoso porque, muito provavelmente, faria Clara amar de novo. baixar a guarda. declinar a guerra fria que havia travado com os homens. no entanto, Bruno, que representava um risco, fazia Clara recuperar a confiança em si mesma. entregava-lhe as chaves do carro, as chaves da casa, acreditava que Clara pudesse cuidar das suas coisas, não como uma detentora apenas, alguém que cumpre ordens e que está sendo testado, mas como uma pessoa simplesmente capaz de gerir a vida prática. por si, sem crivo e sem ser avaliada. estar com Bruno era como ser embalada por uma melodia de paz, de reconciliação. pensar em Bruno era ouvir Corinne Bailey Rae, sentir-se renovada, saída do banho, beijando refrescante. Bruno era perigoso, porque era perigo sem ameaça.
sábado, 11 de abril de 2015
Binho na varanda é lindo
coçando a perna dos mosquitos
mexendo com os pelos do peito pra se distrair
sem camisa bebendo cerveja no copo de requeijão
Binho na varanda é lindo
conversando comigo sem olhar pra mim
com a mão no queixo de preocupação
e o jornal no colo
Um dia eu quis casar com Binho
ver Binho fazendo coisas de marido
tirando o ar da bomba
consertando o encanamento da pia da cozinha
trocando o chuveiro, a torneira, a maçaneta
sendo impaciente comigo
Binho é um pecado que eu não resisto
Binho na varanda é lindo
e me paralisa
Binho me paralisa
sem trazer paz
coçando a perna dos mosquitos
mexendo com os pelos do peito pra se distrair
sem camisa bebendo cerveja no copo de requeijão
Binho na varanda é lindo
conversando comigo sem olhar pra mim
com a mão no queixo de preocupação
e o jornal no colo
Um dia eu quis casar com Binho
ver Binho fazendo coisas de marido
tirando o ar da bomba
consertando o encanamento da pia da cozinha
trocando o chuveiro, a torneira, a maçaneta
sendo impaciente comigo
Binho é um pecado que eu não resisto
Binho na varanda é lindo
e me paralisa
Binho me paralisa
sem trazer paz
sexta-feira, 10 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
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