domingo, 23 de maio de 2010

"eu espero por acontecimentos
mas quando anoitece
é festa no outro apartamento"

você fica aí, olhando pela janela como se soubesse o momento exato em que as coisas acontecem. eu continuo vivendo essa vida como se não houvesse outra vida possível. me agarro a você, por falta de esperança em algo mais.

você com essas costas abertas contra a luz do domingo, vivendo como se eu não existisse. dentro de mim, esbraveja um mundo de coisas impedidas.

eu não consigo te alcançar. os passos até a janela, até tuas costas, são difíceis. é difícil te alcançar. é triste, é doloroso, é solitário.

você sorri para os amigos, promove festas, sorri mais e conta histórias, se embriaga. eu estou por perto, mas você não vê. você não vê este bicho miúdo que te espreita cheio de uma esperança cansada e torpe.

você envolve teus braços firmes nas minhas costas, me abraça um abraço seguro, mas seu sorriso ainda é de todos e a sala demora a se esvaziar.

tudo acaba, você está cansado, eu ainda te espero.

você fica olhando a janela, enquanto tantas coisas morrem deste lado do sofá.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

(escrito encontrado dentro do carta ao pai)

desfazer as malas ainda em viagem, trazer à tona o dia de amanhã - tudo isso era muito doloroso. tornava-se cada dia mais casta, não por uma escolha, mas por um desfalecimento tamanho dos sentidos, que só lhe restava ser assim - mobília, poeira e noite, luz acesa, casa sem voz. nos olhos tanta cegueira quanto lucidez. casa vazia. nada a espera. vinha-lhe a imagem do pai desmanchando o sorriso: de quantos dentes é feita a culpa? noite sem resposta. ensaio um discurso que lhe seja plausível, bem aparado, mas só o Pai tem a Razão. ensaio um sonho que o faça morrer menos e rezo para que não lhe atinjam. o desamparo, o desmazelo, essas horas de agora.
tu sabes que não me és apenas o sobrenome (o único), mas queria eu que tu não soubesses do que te faz entristecer e desmanchar teu sorriso gordo numa manhã de domingo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pé-direito alto em descontínuo IV

Ontem Madalena veio nos visitar. Como sempre, sem aviso. E sem conserto. Tinha engordado muito. A pele do rosto oleosa. O decote exagerado, as roupas muito estampadas e uma cavalaria de colares e pulseiras barulhentas que só faziam anunciar que era uma mulher triste. Madalena & seus badulaques. Os filhos se mudaram, pouco a procuram. O ex-marido parece realizado no novo casamento. Madalena pesa na maquiagem, na cor do esmalte. Não se dá conta do quão catastrófica e caótica é sua imagem. E sorri, e gargalha, gargalha alto, porque nunca teve medida nem limite para nada. É deplorável a gargalhada de Madalena, mas não me provoca compaixão.
Madalena fez suas escolhas, eu fiz as minhas, não há o que lamentar a essa altura da vida. Apesar do desaviso de sua visita, havia laranja-da-terra em compota e a hospitalidade de João. Madalena gesticula, e fala alto, se sacode na poltrona, se intromete na decoração da casa, na minha rotina, faz comentários sobre os parentes distantes. Eu não quero saber o destino deles nem de ninguém, Madalena. Madalena conta das viagens que tem feito, fala sobre as promoções das linhas aéreas, sobre o parcelamento do cartão de crédito, das pechinchas que encontra. Não vê que quanto mais fala, mais sozinha está. João faz as vezes da casa, a leva até o jardim, conta das plantas que plantamos, do projeto da reforma.
Madalena diz que pareço abatida, que preciso de cor. Não tem freio na língua. Ora, apenas o fato de sermos irmãs não lhe dá o direito de vir a minha casa, inventariar meus bens, avaliar-me a saúde, a tez. Papai não logrou em colocar Madalena nos eixos, a permissividade que mamãe guardava à filha mais nova a estragou. Eu, por exemplo, não perguntei a Madalena se suas sobrancelhas permanentes eram para ter ficado pretas, no lugar de verdes.
E volta Madalena a falar dos meus cabelos, do corte, dos novos tratamentos. Céus, como me cansam as visitas, as interferências! Não bastasse ter-me interrompido a rotina, Madalena se demora. Espalha o perfume forte pela casa, gesticula, fala alto, estremece a minha paz. Ainda agora, exala o cheiro deixado por Madalena no sofá da sala. E as empregadas a buscarem traços em comum, comparações entre mim e a outra, pensam que não percebo. Como Dona Madalena é para cima, animada! - Nada sabem, essas criadas, são todas umas cabeças-de-vento.
Não há nada daquela estranha em mim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pé-direito alto em descontínuo III

Tenho ares de mulher devastada pelos anos. Aparento ter vinte eras a mais que o tempo de fato vivido. As pessoas não me dizem, mas sou perita na arte do não-dito. Eu mesma não aprovo o modo de vida dos outros, mas não os faço viver sob o julgo de minha reprovação.

Não me fazem falta, as amizades. Tenho a casa, tenho a João, o casamento. Se me falta vaidade para o corpo, sobra-me a dedicação e o gosto em cuidar do que me pertence de direito. Talvez João não saiba dizer o que as paredes e os cômodos da casa testemunham. Vivo o casamento, João, a casa. Não sou resignada, sou feliz. Penso que João não acredita em minha felicidade, já não faço mais esforços para convencê-lo.

Pouco conheço de João, é bem verdade, no entanto sei de todos seus hábitos e preferências. Horários bem marcados, sobriedade, disciplina. Admito que pouco conheço de João - um grande mistério sem mistério algum, porque não quero desvendá-lo. Tenho uma certeza morna de que João também ama a mim, ou pelo menos acostumou-se e me aceita, o que não é muito diferente de amar. É um homem bonito, como dizem, "bem conservado". Eu e o tempo cuidamos bem de João. Às vezes me pego a pensar quem de nós partirá primeiro. Pelo andar das coisas, imagino (e desejo) que seja eu. Vejo João só, nesta casa. João ficaria ainda mais charmoso e atraente viúvo. A solidão presumida lhe cairia bem, apesar de João não ser dado a sofrimentos e lamentações.
Quanto a mim, só posso dizer que sou uma mulher realizada. Tenho a João, ele tem a mim, nos bastamos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pé-direito alto em descontínuo II

Eu não consigo ir à rua sem ter pressa. Eu preciso estar atrasada para deixar a casa, é preciso que seja urgente e inadiável minha saída, eu preciso sempre voltar depressa à casa. João nunca se contenta com o que escolho para a dispensa. Falta azeite e picles. Eu preciso ir à rua, preciso pegar a correspondência que nos deixam nos correios. Esta casa fica longe de tudo. Bons foram os tempos antes da granja falida. João não convida mais os amigos para jantar. Faz anos que não pinto as unhas. Meus cabelos têm ficado mais ralos e o olhar mais frágil. João faz que não vê muitas coisas. O que seriam dessas criadas sem as minhas orientações. O gigantismo das portas e janelas é oponente e opressor, mas não temo imensidões e abandonos como estes. João joga cartas, só. Não sei de onde João tirou esse tom de gravidade na fala e no olhar. Ontem, me deu a mão enquanto saíamos da missa. Tive muito medo de sorrir, tive medo de que João notasse minha felicidade quase incontida. Eu amaria João mesmo que João fosse um homem sem sucessos. Caminhamos até o carro, estava frio. Voltamos à casa, as luzes dos postes estavam mais trêmulas. É bom que moremos distantes de tudo. É bom que haja uma ponte entre a aqui e a cidade.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pé-direito alto em descontínuo

Gosto de ler histórias de famílias em decadência econômica e estrutural. Prefiro os decadentes aos emergentes, a quem tudo tem ares de novidade acesa. Sou dada a tradições e costumes bem marcados. Casarões abandonados, envoltos por grandes muros, limo nas paredes, rachaduras, jardins que se tornaram verdadeiros matagais. As mármores podem parecer intactas, mas há algo mais fúnebre e grandioso?

João hoje resolveu sair mais cedo, a manhã mal tinha despontado. Levou consigo um livro pelo qual nunca tinha tido interesse e comia uma maçã. A que horas terei João de volta? João demora? Convem ligar o rádio, bordar, fazer pães? O barulho da panela de pressão às nove da manhã é vulgar. Eu não suporto o cheiro dessas criadas. João deixou o carro, mas não sei dirigir.
Estou presa na ausência de João.

domingo, 3 de maio de 2009

é tudo só. meu amor, é tudo tão só. fico revivendo a solidão compartilhada no teu apartamento, eu revivo os momentos enquanto os momentos acontecem. eu pinto as unhas, você lê o jornal, os vizinhos preparam o almoço. os talheres tintilam, ainda não temos fome. acordamos tarde, a noite de ontem se estendeu além do planejado e teus amigos sempre tardam a ir embora. eu abro e fecho portas e janelas, passeio pelos cômodos, estou muito preocupada em encontrar algum objeto há tempos perdido. ninguém sabe onde está. esta casa não é minha. precisamos comprar um escorredor de pratos, os dias têm sido razoavelmente mais fáceis depois que você consertou a geladeira. não vamos sair ilesos dessa. você assiste à tv, eu dobro as roupas secas. temos muita fome. as palavras tem faltado. esta casa é muito grande pro vazio da gente. ambos esperamos com ansiedade o final do campeonato. eu aprendi a gostar de futebol, você ouve rock. você bebe wisky, eu descasco uma cenoura, eu prefiro cenouras cruas. eu tomo banho, você corta as unhas dos pés. escolhemos as roupas, desistimos de tudo. o tédio é elegante e poético, evitamos os olhares. evitamos as palavras, não temos palavras. mato uma barata na cozinha, eu não preciso de você. você age os papéis do inventário, você não precisa de mim. chegam correspondências de toda a sorte, você faz pagamentos, eu escolho sapatos em liquidação, me apaixono por pessoas no metrô, corro a 150 na br. você devia comprar cortinas novas, você devia me proteger disto. os sol está se quebrando lá fora, há cacos de espelhos na calçada, você não me viu chorar ao som de um novo cantor desconhecido. o sol está partido, escorrendo pelas calçadas, asfaltos, na lataria dos carros, nos sonhos sem dono. Estamos mortos de fome.

domingo, 26 de abril de 2009

um dia você vai conhecer uma mulher e vai dizer a ela morrendo de medo do silêncio que se prosseguirá "vem morar comigo" ela não vai dizer nada porque não espera nada de você e porque não sabe ao certo a medida das coisas e você vai dizer isso a ela morrendo de medo de ser precipitado morrendo de medo do que mais possa parecer e vai achar bonito que ela encha a casa de flores e de alegria e a cada manhã você dirá um Aleluia por ter essa mulher ao seu lado por assistir ao seu sono por sentir o cheiro da pele dela por roçar na pele dela por querer morrer só de saber que ela existe e que ela é maior que o seu medo que ela é linda que ela lhe tem amor e você não se pergunta se ela tem medo ou não porque de repente você se vê tão corajoso e tão forte e então você passa a achar que podem sobreviver a tudo juntos que podem crescer e mudar de casa e trocar de carro e a cada noite ela dirá que está com sono que o dia foi cansativo e você dirá Amém e pensará nela com a fé de uma prece e você vai vê-la adoecida com o rosto pálido e vai ter um medo danado da morte um medo danado do abandono e você vai pensar que o sentido das coisas mora nela e vai querer tê-la cada vez mais perto e vai se arrepender de todas as vezes que não soube dizer o quanto admirava seu rosto entristecido ao fim de cada dia e ela vai morrendo morrendo devagar e você também vai morrendo morrendo dentro dela fora de si dentro de si rodeado dela alagado dela e os dois por fim morrerão um dentro do outro lenta e dolorosamente as vidas vão dar uma tão pra dentro da outra

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

I
demorei a traçar estas linhas, e acredito sejam dois os motivos que me levaram a esta recusa: o medo de que os momentos que aqui procuro relatar tivessem sido contaminados pela mácula da culpa e o medo de que me leias e vejas a verdade do que digo. começo por dizer que a pele é a fronteira do desejo, mas a pele não nos leva a lugar nenhum, pois como toda fronteira é passiva, sujeita a, e não por si só, ainda que eu tenha levado uma vida inteira na tentativa de justificar meus piores atos na vontade dela. neste caso, não foi a pele o que me permitiu, ou de onde nasceu, a vontade que eu criei e plantei em você. e vem daí o surgimento primeiro desta culpa. fui eu a responsável pelo teu desejo, pelo meu desejo que cria o desejo alheio de si: o teu. isso me remete às longas conversas recentes com amigos sobre teologia e religião. me sinto mais eva do que mulher. penso nos livros que estudam a genealogia da moral, nos filósofos que tu não conheces nem chegarás a conhecer, a não ser por mim. penso que moral & culpa nasceram e permanecem juntas, mesmo a moral laica, se é que hoje conseguimos alcançá-la, ou secularizá-la. mas em busca de ser maior, resolvi abandonar tanto pensamento, que o pensamento às vezes chega a congelar as mãos, as pernas, o corpo. resolvi deixar de pensar se o que vivemos, eu tu eu os outros, são erros ou acertos, procuro encarar o que decorre de minhas escolhas como acontecimentos. meros acontecimentos, fatalidades, surpresas encantadoras, passos a frente, histórias para se contar. e, neste sentido, não foi o apelo do seu corpo (veja que procuro reconstituir esse calvário-sem-dor) o que me alvoroçou a pele, mas o homem que vi em ti, se assim posso definir a forma do meu desejo, tuas virtudes tão claras e ao mesmo tempo tão leves. não te pesa nunca ser um homem assim? trazer nos ombros tanta coerência e responsabilidade não te cansam? confesso, aqui, ser também um desejo meu a tua fraqueza, como, acredito, é parte de todo o desejo eros - desejar o outro pela sua força, mas desejar sua fraqueza, pois que em sua fraqueza é o lugar onde posso me alojar, criar a força que nem o outro nem eu temos. eu acredito que amar é inventar essa força, e ser forte e generoso a ponto de não desejar mais a fraqueza do outro e não deixar de desejá-lo, superando assim a destrutividade do desejo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

as palavras que emergem da sua pele me comovem. emergem, dizendo-se baixinho, desfalecendo, gritando seu desaparecimento. eu sinto dor, sinto vontade de chorar, de te cantar uma música triste que faça a gente morrer juntinho, na mesma intensidade, morrer de uma dor que torce o peito até destruir a si mesma e morrer da morte que ela mesma provocou na gente. eu e você morrendo na mesma dor, no mesmo compadecimento de dividir o mundo, de caminhar em tanto chão em tanto chão em tanto mar. Olha e Vê: não há mais nada que nos impeça, nada que nos salve. isso não te desespera? não te desespera o anúncio de que o que virá depois de nós é coisa nenhuma. a mim, arrefece-me saber que podemos ir até onde, e que iremos caso nada nem ninguém nos pare. é preciso que algo nos detenha, ISSO NÃO PODE CONTINUAR ASSIM. no entanto, eu mesma não quero sobreviver a nós.

domingo, 23 de novembro de 2008

Beibe só usa jeans, e tem uma cabeleira solar. Beibe não tem camisas de botão. Beibe é de esvoaçar um tudo quando chega. E Beibe é tão bonito que dá dor de barriga só de olhar. Beibe tem um quê de despretencioso, que quase irrita quem muita pressa tem. E Beibe é da paz, Beibe não esquenta com nada. Beibe vive de havainas e não se enxuga depois do banho. Beibe gosta de andar sem cuecas, com os balangandans bem à vontade, numa tarde qualquer. Beibe é todo portas e janelas abertas pra quem quiser entrar. Mas Beibe é na dele. Beibe não conta vantagem, não chora o leite derramado, nem vê esperança só no futuro. Beibe é tão de agora. Beibe me chama, Beibe me mexe inteira. Beibe de samba-canção numa manhã de domingo lendo o jornal é a coisa mais linda que já vi na vida. Beibe me olha, Beibe nunca me estranha. Beibe joga a cabeleira, Beibe me aprisiona no sofá. Beibe me mata de rir. Beibe é livre feito uma folha seca. Beibe é todo vento, todo prosa. Esses dias, Beibe me segurou a mão bem forte e me parou no meio da rua, com carros vindo em nossa direção, só pra me fazer perder o medo de atravessar. Beibe acaba comigo.

domingo, 2 de novembro de 2008

um dia eu vou olhar pra você sem pensar em nunca mais sem te dizer uma palavra e meu coração vai escorrer pelas pernas sem que eu sinta você vai me olhar e me verá despida de qualquer carga semântica e eu não sei o que será daí em diante mas não vou me perguntar não vou te perdoar não vou te culpar não vou me diminuir enquanto o coração desmancha feito um tecido podre sem te rasgar

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um luto ligeiro pelas mortes pequenas.

E aqui me esforço por não enumerá-las, caro leitor. A cada consciência, o peso de seus próprios ressentimentos. Minha memória é um grande navio naufragado, onde se aderem camadas e camadas de vida. Essas camadas novas não são minha memória, são criações autônomas, avulsas, que dela fazem apenas um espaço inaugural de existência. As Cortes do pensamento são de pronto reduzidas à própria natureza dos fatos. O passado nunca morre, essa é a intratável afirmativa com que procuro conviver sem maiores inquietações. O passado é uma grande angústia que nos atinge a todos nós. Não bastasse carregá-lo nas costas, por detrás dos olhos, há no passado uma revolta que o faz revirar-se, mostrar-se a nós, cada vez mais explícito e doloroso. O conhecimento que temos do passado, a vivência dele, é parcial. Ele procura, portanto, que revelemos todas as faces do instante, todas suas incontinências. O passado, contudo, não é esse instante, não se resume a ele, antes é um fluxo variável de pesos, medidas e desacertos. Por vezes, por raras vezes, desconstrói-se ele-mesmo, ao olhar mais atento de si. Justifica-se, desmistifica, desaparece quando sob a luz. Um fluxo viscoso, impertinente, ácido. O outro. Um desconhecido a habitar minha casa, transitando entre os cômodos, pesquisando a dispensa, deitado à cama como se desde sempre fosse sua.

Eu não posso, ou não me permito, revoltar-me contra esse estranho, que é produto de minha própria precariedade. Estabeleço, assim, um laço de sangue, deixo que esse desconhecido se torne ainda mais habituado ao lar. Nos entretemos, vamos dormir. Ele não me diz muito, por dias se silencia, em certas noites fica inquieto e me fala impropérios que não quero ouvir. Me desagrada, não consigo despejá-lo. Habituei-me ao lar, à partilha cotidiana das dependências da casa. Nos esbarramos, não tenho medo. Não me apavora a imagem dele adormecido, nu, deitado no sofá da sala de estar. Já não me pergunto quando ele irá, já não recordo o dia em que chegou. Nossa trajetória - minha e dele - flutua sobre o tempo, imersa, por sobre. Não nos protegemos, não nos ameaçamos. Ainda sou inacabada, ele não me completa, ele cresce, míngua, não sei vai, não lhe peço.

domingo, 14 de setembro de 2008

eu e você, divididos entre a despedida e a permanência, um tédio enorme, a gente numa valsa a rodar no meio da tua sala pequena cheia de móveis, a gente a cantar a música que fala dos olhos do meu amor, arranjos musicais anos setenta, tua magreza caetana, meu esgotamento, nas nossas costas, um abismo enorme - os abismos tem um peso imenso, meu amor- meu amor se abisma em mim, meu amor não é você - meus vestidos estão gastos, meus olhos amarrotados, meu rosto disforme, no próximo passo um abismo imenso, nós imóveis, temerosos, metais crescendo na música, um silêncio breve, depois um silêncio que precede outro maior, depois mais silêncio em suspensão, depois é decretada a morte das palavras, depois tudo morto, e depois mais silêncio agora sem previsão, nós já não temos voz, nós somos de uma mudez irreparável, eu te toco, você se desfaz, tudo se desfaz ao toque, nós nos ameaçamos, nos desfazemos, e outro silêncio nos toma e outro silêncio se esvai

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Carta para o amor eterno (com a sensação de que eu podia ter dito muito mais)

Carlos, eu tenho um monte de coisas pra te dizer e hoje eu decidi que vou expurgar da minha garganta esses demônios a seu respeito. Carlos, você é um ser que, olha, eu não sei nem por onde começar, mas você me dá nos nervos. A começar pelo seu emprego, sabe. Que merda de trabalho é esse, Carlos?! Já te botaram pra trabalhar um mês inteiro sem folga, com uma jornada de trabalho monstruosa, que te suga, e você abaixa a cabeça e diz "sim". Carlos, tudo bem, é o SEU trabalho e longe de mim ser idealista, só que assim não dá. Você vive sendo explorado. E o pior, Carlos, você não tem ambição. Aceita tudo como se tivesse de ser assim e ponto. Tá sempre cansado, com dor de cabeça. Carlos, eu não me lembro da última vez que te vi disposto. Óbvio que o cansaço e as dores de cabeça não se devem apenas ao trabalho, mas às suas ressacas homércias. Carlos, não bastasse o seu trabalho pra te destruir, você bebe horrores! Você arranja assunto não sei de onde pra não sair do bar com seus amigos ébrios. Eu me sentia culpada em transar com você. Chegávamos em casa às 3am, enquanto você tinha que acordar às 7am. E transávamos. Depois você perdia o sono. Você não é como os outros homens que depois do gozo apagam. Você, ao contrário, perde o sono. É claro que eu gostava de ter alguém pra me amparar do sexo, depois do sexo. A gente conversava, e eu também perdia o sono. Mas o fato é que Carlos, você pouco dorme, mas parece que você vive num sono profundo, porque você não se dá conta de nada. Carlos, além de beber, você fuma com-pul-si-va-men-te. Você é uma chaminé ambulante, Carlos! Você fica ansioso quando ainda faltam cinco cigarros pro seu maço acabar! Carlos, você fuma mais que todos os seus amigos JUNTOS. O meu cabelo, eu mal posso aproveitar o cheiro de shampoo, que fica logo todo impregnado com esse fedor de fumaça. Eu fico sufocada, Carlos, mesmo. E você pouco se importa, você nem faz o esforço de fumar sequer um cigarro a menos. Foda-se o meu bem-estar. E além de fumar cigarros lícitos, você fuma os ilícitos também. E parece que você está constantemente emaconhado, numa leseira interminável. Eu me pergunto, Carlos, quando você vai acordar. Você fuma, mija e CHEIRA todo o seu salário de miséria. Carlos, seu pai ainda paga tua conta de celular, que eu tenho certeza, não sai barata, essas tarifas são um abuso. Outra coisa que me incomodava: teu bairro. Teu bairro fedia a amônia. Ok, vou ser mais clara: urina, era mijo puro a tua rua. Teu prédio, também, nada me agradava. Eu tinha nojo dos seus vizinhos. Nunca vi ter tanta velha e gorda num prédio só! Todo o mundo lá era louco. E eu vivia desconfiada de que o povo ouvia a gente transando. Porque, sabe, eu me preocupava com minha performance. Fazia gemidos dignos de filmes pornôs, e dos bons, hein. Eu sei que você gostava. Mas não me sai da cabeça que aquele seu vizinho maratonista-wannabe ficava com os ouvidos grudados na parede pra ouvir. Ah! AHAHAHAAHA Lembrei do dia em que a gente quebrou a cama. Ainda tá quebrada, Carlos? As outras sabem o motivo? Quantas você já comeu naquela cama? Aliás, você já consertou aquela infiltração na parede do quarto? Olha que um dia aquela parede ainda cai bem na hora em que você estiver comendo uma louca qualquer, tô te dizendo. Era horrível dormir naquela cama cheirando a mofo, aquela umidade digna de presídio. O concreto se desmontando sobre minhas pernas. Um dia qualquer aquela parede cai e você vai se deparar com seu vizinho bem do ladinho dela ouvindo os gemidos fingidos de uma louca qualquer. Tá, eu fingia. Sim, TODAS as vezes, absolutamente todas. Não, eu não sou frígida. Às vezes eu até te dizia a verdade "Não, amor, não cheguei lá, mas foi ótimo mesmo assim", pra fazer com que as vezes em que eu fingisse ter chegado "lá" fossem mais verdadeiras. Eu nunca soube quando você acreditava ou não em mim, então não fazia muita diferença mentir ou dizer a verdade sobre certas coisas. Mas eu odeio quando você insinua que sou dissimulada, que sempre fui. Eu te odeio tanto, Carlos, eu odeio o fato de ter me entregado a você, na mais asquerosa concepção de se entregar a alguém. Falando no teu apartamento, me explica aquela sua cozinha, Carlos. Não tem um armário que feche, as paredes tem no mínimo três centímetros de gordura e você deve ferrar com a caixa de gordura do prédio, com tanta porcaria que joga pelo ralo. Sabe, eu até sentia bastante prazer em lavar tua louça. Mas, poxa, tinha prato de mais de três dias, ou muito secos, com a comida toda grudada, ou um ecossistema de esgoto em cima da pia. Ai, Carlos, você não sabia fazer café. Lembra que eu te ensinei? E te ensinei a cozinhar arroz, também. Teu feijão era gostoso, o melhor que já comi na vida. Teu abraço, também. E teu beijo, embora não sem ressalvas: você podia explorar melhor a língua. Fica a dica pra quando você for pegar as próximas loucas. Todas são doidas, né, Carlos, quanta coincidência! Ai, eu pensei que fosse me esvaziar dizer tudo isso, mas está me cansando. Como eu me cansei de você e da sua mediocridade. Da sua vidinha pobre de submundo existencial. E tem mais, Carlos Alberto: seu nome é escroto.

sábado, 23 de agosto de 2008

diálogos II

Ele elogia meu 'decote'.
-Mas não pense que sou apenas um par de seios!
Ele faz cara de absurdo.
-Não, claro que não! És também um par de coxas.

sábado, 9 de agosto de 2008

a escultura perecível de nossos corpos errantes, enquanto tu me erravas no dentro de mim e eu me derramava em avessos pelos quadris, pelos peitos, pelos pelos, num fluxo incessante de arrependimentos, noites sem depois, ausências que se sucediam, dores que se precipitavam, esperas e ardências, a nossa incomunicabilidade, o esforço para estabelecer um fluxo que fosse, algo sem impedimentos, tardes e mais tardes, eu do teu lado, tu deserto, devolvendo-me à beira, ao que eu pertencia, ao que me pertencia, ao não pertencimento de coisa alguma, décadas sem mémoria nos teus olhos, tua não revelação, nosso imenso desencontro, eu errante, ao te buscar pelo avesso, pelos quadris, pelos pelos, no teu dentro imenso desencontro

domingo, 22 de junho de 2008

Confessionária
Primeiro, o calor do meu hálito, depois, a ponta da língua, nunca tão leve, pousei-a sobre meu ombro esquerdo, a língua ainda tímida, surgindo entre os dentes, beijei-me com duas ondas, não havia suor, beijei-me com tamanho ardor que cheguei a apertar meu braço esquerdo com minha mão direita e apertei forte com meus dedos sem esmalte, não senti gosto algum, mas o gosto ficou. No aparelho de som, uma voz de nome bíblico cantava e repetia versos em inglês, algo como you and me and the sea and the breeze, que não quero lembrar agora, mas fazia sentido. Encolhi as pernas, tranquei-as com os braços como se me protegesse o ventre. Algo como quando eu experimentava a morte, na piscina, submersa, nãopossorespirar, nãopossorespirar, os sons distorcidos, um pouco mais de silêncio, um silencio tão denso quanto a água, esse desfalecimento. Virei-me de bruços para a cama, o corpo ainda trancado, éprecisorespirar, éprecisorespirar. Experimentei morrer novamente, mas morrer sobre a cama não tem tanta paz quanto morrer na piscina lá de casa, morrer na cama não é azul. E vá lá, eu não queria nem quero morrer. Ainda mais depois daquele beijo. O ombro melado, a saliva secando e repuxando a pele. O braço doído do meu aperto. Quantas vezes mais será necessário ressarcir-se da dor? Agora tudo me parece mais fácil, mesmo que para os outros seja incompreensível. Ainda mais depois daquele beijo.

sábado, 7 de junho de 2008

do orgânico do ser II

Hoje vi um homem sem as tuas feições. Era louro, usava óculos pequenos, de armação preta, fina. Para ele, talvez o mundo tivesse bordas, enquadramento. Não falo de sentido. Num dos cafés mais caros da cidade, esse homem sem as tuas feições mastigava um sanduíche, e mastigava como se mastigasse a própria vida. Com vingança. Também eu queria te mastigar assim. Com mais lentidão e menos voracidade, porque não tenho fome.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

do orgânico do ser I

A fome é o que nos faz primitivos. Não os instintos, o medo, a violência. Mas a fome inadiável. Maria alimentava-os, não se sabia se com pena ou desdém, se para mantê-los ou fazê-los apenas silenciar. Não se sabia se Maria saciava-lhes a necessidade primeira por compaixão ou mera conduta. O que Maria via naquelas bocas disformes, suplicantes, o que Maria sentia quando neles se assentava a fartura mendicante. As sobras do outro dia, os restos dos que virão. Ser ou deixar de ser não nos livra a ninguém.