terça-feira, 12 de outubro de 2010

"A chair is still a chair, even when there's no one sittin' there
But a chair is not a house and a house is not a home
When there's no one there to hold you tight
And no one there you can kiss goodnight"

Eu hoje fiz uma coleção de coisas bonitas. Entre papéis, músicas e fotografias, o desejo era um só: recolher o melhor do mundo, pra te dar. E não era um projeto pretensioso, tampouco simplista. Te escrevi uns versinhos sem rima, no estilo poesia concreta. Por exemplo: ÀS VEZES AS PALAVRAS ESCORREM FEITO SANGUE OU CHUVA (na vertical, em declínio) NOUTRAS VEZES ESCALAM  A NUCA SEM NADA DIZER (de baixo para cima, as letras 'decrescentes' , dá vertigem de ler), num filete de papel vergé que sobrou dos convites que eu mesma fiz para meu aniversário de 15 anos. Experimentei uns perfumes antigos, que quase não uso, porque me provocam náuseas. Queria um frangrância que representasse um traço meu. Assim, que quando eu te abraçasse, eu deixasse um pouco do meu perfume nos teus braços, na tua barba, na gola da tua camisa. Tenho estudado muito. Sobre? Ah, sobre decoração, tenho lido guias de etiqueta, coquetéis, drinks, arranjos de flores, culinária.Tenho construído casas sem erguer paredes. Ainda. Só falta você chegar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

um dia
você vai morder uma goiaba madura cheirosa
num fim-de-tarde
em Atafona
e vai morder
tão forte, tão-forte
que vai quebrar o dente com um caroço
e não vai lembrar
do meu amor
do meu rosto
da minha doação
vai lembrar
que eu te avisei.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

teu corpo
é a memória
dos lugares onde nunca estive
não me lembra pertencimento
me traz horrores
me detém
e sempre vai embora

terça-feira, 20 de julho de 2010

sometimes a man gets carried away
when he feels like he should be having his fun
and much too blind to see the damage he's done


Não é que estivesses demasiado envolvido para voltar atrás, é que por algum outro motivo tu resistias a me deixar. E assim se passaram as viagens, as longas conversas, as noites, o constrangimento. Jamais nos sentimos totalmente à vontade na presença do outro. Eu preocupada em continuar sendo eu mesma, e não aquela que corresponderia às tuas expectativas. Tu preocupado com o ponto a que as coisas haviam chegado. O ponto a que tu havias conduzido essa tragédia anunciada, essa tragédia sem dor, esse mormaço de horas sobre nossas cabeças.

maybe you're too young
to keep good love from going wrong

Tu devias ouvir Jeff Buckley, tu devias ouvir Lover, you should've come over, agora que, penso eu, já sabes traduzir.



so i'll wait for you, and i'll burn

sábado, 17 de julho de 2010

Pé-direito alto em descontínuo VI

A criada voltou a enxergar. Não sei bem como isso se deu, mas depois de quatro dias cega, recuperou a visão. Confesso que me senti aliviada, menos pela visão em si do que pelas providências que eu deveria tomar caso a cegueira permanecesse. João fez uma festa, correu a casa carregando a serviçal nos braços. Os olhos das outras brilhavam um brilho que não era apenas de alegria, o que só me fez confirmar que elas de fato nutrem uma paixão miserável por João. São gente sem rumo, que veio parar aqui. Por mim, elas não são necessárias, ainda tenho disposição para cuidar das coisas da casa. Mas João insiste, diz que é para eu me poupar, e diz que precisamos ajudá-las, também. O coração desse homem.

quinta-feira, 15 de julho de 2010



"Eis aqui
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar"

eu não quero o teu olhar voltado para mim, eu quero poder te observar sem interferências, te assistir enquanto assistes ao jornal, ou enquanto escreves tuas contas.
tu não sabes o que é estar nos braços de um homem, percorrer o corpo de um homem como quem deseja chegar ao outro lado. ao outro lado de quê? aonde? talvez ao outro lado do tempo-espaço, onde as coisas não são como são,
me transpor do colapso do corpo ao estupor do despensamento. é como saber teu endereço. um oceano nu, minhas pernas sem sol, teu rosto viril. o momento vai ficando antigo, vejo nossos filhos em super8 na piscina da mansão dos salles, as viagens internacionais e as tardes em shoping centers.
penso no metrô domingo à noite, na solidão dessas coisas, da cidade, do centro da cidade numa tarde de domingo e é tudo tão desamparado e eu não posso ser mãe das coisas, que coisa não tem parentesco nem umbigo onde eu possa enfiar um cano e dizer que pari. eu quero que a minha escrita não considere a ti nem tua temática remanescente, para ser fluida. eu quero que a minha escrita não revele nem diga o que eu quero tanto dizer e o que eu quero que não saibas.
não vou mencionar o amor de ontem e vou cuidar para que. não sei.
quando teu olhar mais grave me acena o homem que és, eu não sei o que em teu olhar te esconde ou te revela. e eu não gosto que sorrias quando me olhas em silêncio, porque não sei a mensagem que teu sorriso leva ou trai. enquanto me olhas no silêncio, eu no mesmo silêncio peço que não nos vejamos novamente, que não me queiras nos próximos dias, que abandonemos a frequência dos encontros. peço porque a cada vez que nos vemos eu te vejo mais bonito, me acomodo melhor nos teus ombros, e começo a não saber dizer.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

só sei dizer
coisas inúteis
quina de cabeceira
obra no vizinho
rinite & sinusite
quando quero
dizerqueteamo

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pé-direito alto em descontínuo V

Essas criadas não tem jeito. Ontem pela manhã, uma delas, a mais velha, não sei que asneira fez ao manejar a panela de pressão ao fogo, que a fez explodir, emporcalhando toda a cozinha. E o pior: desde então está cega. Os médicos disseram que a anta pode recuperar a visão em alguns dias ou nunca mais. De que vale a opinião dos médicos? Nunca sabem responder nada precisamente. Tudo o que fazem é um exercício de adivinhação. Como a serviçal não tem família, João achou por bem acomodarmo-na em nossa casa. Jamais admiti que as criadas dormissem aqui porque acho que elas já se interam demais de nossas dias para que também nos testemunhem as noites. Além do mais, o cheiro delas me provoca náuseas. Muito bem, ela dorme no quarto dos fundos. Uma suíte bastante razoável, pois é preciso que ela tenha acesso fácil ao banheiro. João se preocupa, se sente culpado. Como?! A incompetente não soube abrir uma panela e João se martiriza. Estou pensando no que fazer, onde despejá-la, caso a inútil não volte a enxergar. Sempre fiz questão de repetir diariamente todos os cuidados que elas devem ter ao cozinhar, ao limpar a casa, ao se higienizar, ao caminhar à rua. Não me ouvem, preferem a própria ignorância. Pois foi em uma dessas que a outra se queimou, ficou cega e manchou todas as paredes e o teto da cozinha.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Como imaginar que a manhã despretenciosa de verão, em que ensaiávamos um amor rasteiro, pudesse se transformar em uma coisa dura como esta? O sol se expandia em meio a muita gente, por todo o canto, fazendo um dia tão bonito, mas tão bonito, que afrontava todas as minhas previsões. Amanheceste enevoado, sisudo, contrariado com as urgências não satisfeitas na noite anterior. Me chamaste às escondidas. Dirigiste ensimesmado, e com algum esforço, na estrada até o mar, trocamos uma meia-dúzia de palavras. Eu não fazia questão de mais que isso, porque o dia estava bonito e em dias assim tudo é uma chance para ser eternamente feliz sem deixar de sentir o outro lado das coisas. E de fato, eu não deixava de pensar nas implicações de cada gesto, daquela saída, daquela viagem, daquela fuga.

Não sei nadar. Fui criada na doutrina do medo das coisas absurdamente possíveis. Décadas de medo me antecederam a existência, de modo que minha estirpe luta para disperçá-lo, mas eu, particularmente, não sou tão empenhada nesta tarefa de vencer o medo de morrer em um instante de absurdo, em uma queda da árvore, em uma asfixia provocada por cócegas. E porque o mar não tem cabelo eu me agarrei a ti. É engraçado pensar que saber nadar teria feito as coisas diferentes. Não teria.

Tu conduzias teu jetski , eu supunha, como tantos outros jovenzinhos conduziram suas lambretas em cidades remotas, em bandos, quando o cinema era novidade e quando o amor era um mistério que vivia mais próximo dos corações adolescentes: tu conduzias com paixão pela liberdade. De repente, estávamos em Beverly Hills, de repente eu era a garota do seriado americano, de repente tu eras mais bonito e mais forte do que eras, de repente tocava The Kooks, e de repente meu peito era o mundo.

Teus planos eram outros, mas acabamos parando numa ilha sem brilho, onde conversamos por um tempo. Falamos sobre relacionamentos-anteriores-projetos-futuros-e-vida-profissional. Eu admirava teu jeito de conciliar seriedade com bom humor, mas me incomodava tua maneira de gesticular excessivamente e mais ainda: teu olhar avaliador sobre cada frase minha. Talvez, eu me orgulhasse, na verdade, era: 1- da lucidez com que eu captava cada uma dessas e de tantas outras impressões a teu respeito; 2 - da minha inteligência na sutileza dessa percepção; 3 - do meu comedimento ao reagir às revelações a que chegava.

A aventura daquela manhã quase me doeu de uma alegria desvairada e bêbada, enquanto tu cada vez mais veloz atravessavas meus mares de medo. A cada mil metros que tu conduzias à frente, mil corações eu fiz pulsar. Eu não tinha medo de morrer, medo de amar, medo de não existir e eu sorria e gritava e te beijava e desafiava meus medos tolos. Tudo se resumia à tua condução sedenta de espaço.

No caminho, tu viste tartarugas e outros animais, mas eu estava fixada em Fernão Capelo Gaivota, que nos acompanhou durante todo o percurso, nos assistindo, se exibindo e me ensinando sobre a importância da beleza no vôo.

Naquela manhã, parecia que descobrias um novo continente. Eras jovem, forte, seguro e voraz. Tinhas uma fome farta vida afora.

Ainda não sei quem és. Preciso abandonar aqueles dias.

domingo, 13 de junho de 2010

Reconstruir o passado é uma forma de dar sentido à vida. Os mortos, os arrependimentos, a embriaguez das noites, os olhares dos outros, os lugares por que passamos - nós somos todos esses pedaços de vida estragada, reconduzida, afundada, dignificada e persistente. Não morremos nem depois da morte, porque o tempo é vadio para quem fica e às vezes se esquece de passar. (O tempo não dá vida nem faz cessar as coisas. Mas o quê eu não sei.)


Teu peito aberto é escudo para a dor. Alguns de nós se arriscam movidos pelo medo. Eu mesma tenho uma vertigem incurável de viver. Mas ainda não sei se foste meu medo ou minha coragem.
Não morri por ti. Nem por um segundo. Já morri por outros homens, e por pequenas coisas, também. Não por ti.
Julgo que entendes muito bem de perder e ganhar. Precisas, agora, aprender a permanecer. Tens casa, bens, sucesso e conforto. Mas não tens a quem pertencer. E quero que entendas: pertencer é preciso, digam o que quiserem os outros.
Desconfio que minhas verdades sejam imprecisas ou equivocadas, porém não posso me livrar do que sou agora. Não é justo que eu pretenda ser além do que este corpo jovem e fatigado generosamente me oferece, nesta hora em que te escrevo.
Sim, minhas forças são tortas, por isso me desdobro em cuidados para: 1- manter-me inteira; 2- mantê-las. E se te olho com olhos que não dizem nada, é que a tempestade se anuncia neles e tu não notaste. Teus olhos de lince, que alcançam mares e horizontes, não foram capazes de ver o mais imediato dos meus desejos.
Enxergas muito longe, mas precisas aprender a ver de perto, e dentro, no além da pele, no desconforto do pensamento; dentro desta caverna escura onde se acumulam e se revolvem em movimentos incertos poeira e sangue (desse buraco estranho a que chamam coração).
O que trago comigo não é um segredo, é uma ferida aberta, um rasgo curioso, declarado, pedindo compreensão. O que peço é muito pouco, quase nada. Sou pobre de história e de futuro. Tenho as mãos vazias porque não quero possuir nem gastar, porque prefiro o movimento.
Não sou mais triste. Isso era quando eu não sabia das coisas que hoje sei. Sabê-las, hoje, já me basta. Os passos à frente não são duros nem titubeantes. São francos. Sofrimento e alegria não se excluem nem caminham juntos. Se trançam, se emaranham e se fundem. Tudo o mais é corpo de fundo, que a gente carrega até encontrar mais substância.
Foi assim contigo. Te carreguei pesado no esôfago - bola de chumbo gravitacional. Tua aura metálica condensada no meu baixo-esôfago. Tu não tinhas forma nem órgãos nem voz nem corpo. Somente o peso.

domingo, 23 de maio de 2010

"eu espero por acontecimentos
mas quando anoitece
é festa no outro apartamento"

você fica aí, olhando pela janela como se soubesse o momento exato em que as coisas acontecem. eu continuo vivendo essa vida como se não houvesse outra vida possível. me agarro a você, por falta de esperança em algo mais.

você com essas costas abertas contra a luz do domingo, vivendo como se eu não existisse. dentro de mim, esbraveja um mundo de coisas impedidas.

eu não consigo te alcançar. os passos até a janela, até tuas costas, são difíceis. é difícil te alcançar. é triste, é doloroso, é solitário.

você sorri para os amigos, promove festas, sorri mais e conta histórias, se embriaga. eu estou por perto, mas você não vê. você não vê este bicho miúdo que te espreita cheio de uma esperança cansada e torpe.

você envolve teus braços firmes nas minhas costas, me abraça um abraço seguro, mas seu sorriso ainda é de todos e a sala demora a se esvaziar.

tudo acaba, você está cansado, eu ainda te espero.

você fica olhando a janela, enquanto tantas coisas morrem deste lado do sofá.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

(escrito encontrado dentro do carta ao pai)

desfazer as malas ainda em viagem, trazer à tona o dia de amanhã - tudo isso era muito doloroso. tornava-se cada dia mais casta, não por uma escolha, mas por um desfalecimento tamanho dos sentidos, que só lhe restava ser assim - mobília, poeira e noite, luz acesa, casa sem voz. nos olhos tanta cegueira quanto lucidez. casa vazia. nada a espera. vinha-lhe a imagem do pai desmanchando o sorriso: de quantos dentes é feita a culpa? noite sem resposta. ensaio um discurso que lhe seja plausível, bem aparado, mas só o Pai tem a Razão. ensaio um sonho que o faça morrer menos e rezo para que não lhe atinjam. o desamparo, o desmazelo, essas horas de agora.
tu sabes que não me és apenas o sobrenome (o único), mas queria eu que tu não soubesses do que te faz entristecer e desmanchar teu sorriso gordo numa manhã de domingo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pé-direito alto em descontínuo IV

Ontem Madalena veio nos visitar. Como sempre, sem aviso. E sem conserto. Tinha engordado muito. A pele do rosto oleosa. O decote exagerado, as roupas muito estampadas e uma cavalaria de colares e pulseiras barulhentas que só faziam anunciar que era uma mulher triste. Madalena & seus badulaques. Os filhos se mudaram, pouco a procuram. O ex-marido parece realizado no novo casamento. Madalena pesa na maquiagem, na cor do esmalte. Não se dá conta do quão catastrófica e caótica é sua imagem. E sorri, e gargalha, gargalha alto, porque nunca teve medida nem limite para nada. É deplorável a gargalhada de Madalena, mas não me provoca compaixão.
Madalena fez suas escolhas, eu fiz as minhas, não há o que lamentar a essa altura da vida. Apesar do desaviso de sua visita, havia laranja-da-terra em compota e a hospitalidade de João. Madalena gesticula, e fala alto, se sacode na poltrona, se intromete na decoração da casa, na minha rotina, faz comentários sobre os parentes distantes. Eu não quero saber o destino deles nem de ninguém, Madalena. Madalena conta das viagens que tem feito, fala sobre as promoções das linhas aéreas, sobre o parcelamento do cartão de crédito, das pechinchas que encontra. Não vê que quanto mais fala, mais sozinha está. João faz as vezes da casa, a leva até o jardim, conta das plantas que plantamos, do projeto da reforma.
Madalena diz que pareço abatida, que preciso de cor. Não tem freio na língua. Ora, apenas o fato de sermos irmãs não lhe dá o direito de vir a minha casa, inventariar meus bens, avaliar-me a saúde, a tez. Papai não logrou em colocar Madalena nos eixos, a permissividade que mamãe guardava à filha mais nova a estragou. Eu, por exemplo, não perguntei a Madalena se suas sobrancelhas permanentes eram para ter ficado pretas, no lugar de verdes.
E volta Madalena a falar dos meus cabelos, do corte, dos novos tratamentos. Céus, como me cansam as visitas, as interferências! Não bastasse ter-me interrompido a rotina, Madalena se demora. Espalha o perfume forte pela casa, gesticula, fala alto, estremece a minha paz. Ainda agora, exala o cheiro deixado por Madalena no sofá da sala. E as empregadas a buscarem traços em comum, comparações entre mim e a outra, pensam que não percebo. Como Dona Madalena é para cima, animada! - Nada sabem, essas criadas, são todas umas cabeças-de-vento.
Não há nada daquela estranha em mim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pé-direito alto em descontínuo III

Tenho ares de mulher devastada pelos anos. Aparento ter vinte eras a mais que o tempo de fato vivido. As pessoas não me dizem, mas sou perita na arte do não-dito. Eu mesma não aprovo o modo de vida dos outros, mas não os faço viver sob o julgo de minha reprovação.

Não me fazem falta, as amizades. Tenho a casa, tenho a João, o casamento. Se me falta vaidade para o corpo, sobra-me a dedicação e o gosto em cuidar do que me pertence de direito. Talvez João não saiba dizer o que as paredes e os cômodos da casa testemunham. Vivo o casamento, João, a casa. Não sou resignada, sou feliz. Penso que João não acredita em minha felicidade, já não faço mais esforços para convencê-lo.

Pouco conheço de João, é bem verdade, no entanto sei de todos seus hábitos e preferências. Horários bem marcados, sobriedade, disciplina. Admito que pouco conheço de João - um grande mistério sem mistério algum, porque não quero desvendá-lo. Tenho uma certeza morna de que João também ama a mim, ou pelo menos acostumou-se e me aceita, o que não é muito diferente de amar. É um homem bonito, como dizem, "bem conservado". Eu e o tempo cuidamos bem de João. Às vezes me pego a pensar quem de nós partirá primeiro. Pelo andar das coisas, imagino (e desejo) que seja eu. Vejo João só, nesta casa. João ficaria ainda mais charmoso e atraente viúvo. A solidão presumida lhe cairia bem, apesar de João não ser dado a sofrimentos e lamentações.
Quanto a mim, só posso dizer que sou uma mulher realizada. Tenho a João, ele tem a mim, nos bastamos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pé-direito alto em descontínuo II

Eu não consigo ir à rua sem ter pressa. Eu preciso estar atrasada para deixar a casa, é preciso que seja urgente e inadiável minha saída, eu preciso sempre voltar depressa à casa. João nunca se contenta com o que escolho para a dispensa. Falta azeite e picles. Eu preciso ir à rua, preciso pegar a correspondência que nos deixam nos correios. Esta casa fica longe de tudo. Bons foram os tempos antes da granja falida. João não convida mais os amigos para jantar. Faz anos que não pinto as unhas. Meus cabelos têm ficado mais ralos e o olhar mais frágil. João faz que não vê muitas coisas. O que seriam dessas criadas sem as minhas orientações. O gigantismo das portas e janelas é oponente e opressor, mas não temo imensidões e abandonos como estes. João joga cartas, só. Não sei de onde João tirou esse tom de gravidade na fala e no olhar. Ontem, me deu a mão enquanto saíamos da missa. Tive muito medo de sorrir, tive medo de que João notasse minha felicidade quase incontida. Eu amaria João mesmo que João fosse um homem sem sucessos. Caminhamos até o carro, estava frio. Voltamos à casa, as luzes dos postes estavam mais trêmulas. É bom que moremos distantes de tudo. É bom que haja uma ponte entre a aqui e a cidade.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pé-direito alto em descontínuo

Gosto de ler histórias de famílias em decadência econômica e estrutural. Prefiro os decadentes aos emergentes, a quem tudo tem ares de novidade acesa. Sou dada a tradições e costumes bem marcados. Casarões abandonados, envoltos por grandes muros, limo nas paredes, rachaduras, jardins que se tornaram verdadeiros matagais. As mármores podem parecer intactas, mas há algo mais fúnebre e grandioso?

João hoje resolveu sair mais cedo, a manhã mal tinha despontado. Levou consigo um livro pelo qual nunca tinha tido interesse e comia uma maçã. A que horas terei João de volta? João demora? Convem ligar o rádio, bordar, fazer pães? O barulho da panela de pressão às nove da manhã é vulgar. Eu não suporto o cheiro dessas criadas. João deixou o carro, mas não sei dirigir.
Estou presa na ausência de João.

domingo, 3 de maio de 2009

é tudo só. meu amor, é tudo tão só. fico revivendo a solidão compartilhada no teu apartamento, eu revivo os momentos enquanto os momentos acontecem. eu pinto as unhas, você lê o jornal, os vizinhos preparam o almoço. os talheres tintilam, ainda não temos fome. acordamos tarde, a noite de ontem se estendeu além do planejado e teus amigos sempre tardam a ir embora. eu abro e fecho portas e janelas, passeio pelos cômodos, estou muito preocupada em encontrar algum objeto há tempos perdido. ninguém sabe onde está. esta casa não é minha. precisamos comprar um escorredor de pratos, os dias têm sido razoavelmente mais fáceis depois que você consertou a geladeira. não vamos sair ilesos dessa. você assiste à tv, eu dobro as roupas secas. temos muita fome. as palavras tem faltado. esta casa é muito grande pro vazio da gente. ambos esperamos com ansiedade o final do campeonato. eu aprendi a gostar de futebol, você ouve rock. você bebe wisky, eu descasco uma cenoura, eu prefiro cenouras cruas. eu tomo banho, você corta as unhas dos pés. escolhemos as roupas, desistimos de tudo. o tédio é elegante e poético, evitamos os olhares. evitamos as palavras, não temos palavras. mato uma barata na cozinha, eu não preciso de você. você age os papéis do inventário, você não precisa de mim. chegam correspondências de toda a sorte, você faz pagamentos, eu escolho sapatos em liquidação, me apaixono por pessoas no metrô, corro a 150 na br. você devia comprar cortinas novas, você devia me proteger disto. os sol está se quebrando lá fora, há cacos de espelhos na calçada, você não me viu chorar ao som de um novo cantor desconhecido. o sol está partido, escorrendo pelas calçadas, asfaltos, na lataria dos carros, nos sonhos sem dono. Estamos mortos de fome.

domingo, 26 de abril de 2009

um dia você vai conhecer uma mulher e vai dizer a ela morrendo de medo do silêncio que se prosseguirá "vem morar comigo" ela não vai dizer nada porque não espera nada de você e porque não sabe ao certo a medida das coisas e você vai dizer isso a ela morrendo de medo de ser precipitado morrendo de medo do que mais possa parecer e vai achar bonito que ela encha a casa de flores e de alegria e a cada manhã você dirá um Aleluia por ter essa mulher ao seu lado por assistir ao seu sono por sentir o cheiro da pele dela por roçar na pele dela por querer morrer só de saber que ela existe e que ela é maior que o seu medo que ela é linda que ela lhe tem amor e você não se pergunta se ela tem medo ou não porque de repente você se vê tão corajoso e tão forte e então você passa a achar que podem sobreviver a tudo juntos que podem crescer e mudar de casa e trocar de carro e a cada noite ela dirá que está com sono que o dia foi cansativo e você dirá Amém e pensará nela com a fé de uma prece e você vai vê-la adoecida com o rosto pálido e vai ter um medo danado da morte um medo danado do abandono e você vai pensar que o sentido das coisas mora nela e vai querer tê-la cada vez mais perto e vai se arrepender de todas as vezes que não soube dizer o quanto admirava seu rosto entristecido ao fim de cada dia e ela vai morrendo morrendo devagar e você também vai morrendo morrendo dentro dela fora de si dentro de si rodeado dela alagado dela e os dois por fim morrerão um dentro do outro lenta e dolorosamente as vidas vão dar uma tão pra dentro da outra

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

I
demorei a traçar estas linhas, e acredito sejam dois os motivos que me levaram a esta recusa: o medo de que os momentos que aqui procuro relatar tivessem sido contaminados pela mácula da culpa e o medo de que me leias e vejas a verdade do que digo. começo por dizer que a pele é a fronteira do desejo, mas a pele não nos leva a lugar nenhum, pois como toda fronteira é passiva, sujeita a, e não por si só, ainda que eu tenha levado uma vida inteira na tentativa de justificar meus piores atos na vontade dela. neste caso, não foi a pele o que me permitiu, ou de onde nasceu, a vontade que eu criei e plantei em você. e vem daí o surgimento primeiro desta culpa. fui eu a responsável pelo teu desejo, pelo meu desejo que cria o desejo alheio de si: o teu. isso me remete às longas conversas recentes com amigos sobre teologia e religião. me sinto mais eva do que mulher. penso nos livros que estudam a genealogia da moral, nos filósofos que tu não conheces nem chegarás a conhecer, a não ser por mim. penso que moral & culpa nasceram e permanecem juntas, mesmo a moral laica, se é que hoje conseguimos alcançá-la, ou secularizá-la. mas em busca de ser maior, resolvi abandonar tanto pensamento, que o pensamento às vezes chega a congelar as mãos, as pernas, o corpo. resolvi deixar de pensar se o que vivemos, eu tu eu os outros, são erros ou acertos, procuro encarar o que decorre de minhas escolhas como acontecimentos. meros acontecimentos, fatalidades, surpresas encantadoras, passos a frente, histórias para se contar. e, neste sentido, não foi o apelo do seu corpo (veja que procuro reconstituir esse calvário-sem-dor) o que me alvoroçou a pele, mas o homem que vi em ti, se assim posso definir a forma do meu desejo, tuas virtudes tão claras e ao mesmo tempo tão leves. não te pesa nunca ser um homem assim? trazer nos ombros tanta coerência e responsabilidade não te cansam? confesso, aqui, ser também um desejo meu a tua fraqueza, como, acredito, é parte de todo o desejo eros - desejar o outro pela sua força, mas desejar sua fraqueza, pois que em sua fraqueza é o lugar onde posso me alojar, criar a força que nem o outro nem eu temos. eu acredito que amar é inventar essa força, e ser forte e generoso a ponto de não desejar mais a fraqueza do outro e não deixar de desejá-lo, superando assim a destrutividade do desejo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

as palavras que emergem da sua pele me comovem. emergem, dizendo-se baixinho, desfalecendo, gritando seu desaparecimento. eu sinto dor, sinto vontade de chorar, de te cantar uma música triste que faça a gente morrer juntinho, na mesma intensidade, morrer de uma dor que torce o peito até destruir a si mesma e morrer da morte que ela mesma provocou na gente. eu e você morrendo na mesma dor, no mesmo compadecimento de dividir o mundo, de caminhar em tanto chão em tanto chão em tanto mar. Olha e Vê: não há mais nada que nos impeça, nada que nos salve. isso não te desespera? não te desespera o anúncio de que o que virá depois de nós é coisa nenhuma. a mim, arrefece-me saber que podemos ir até onde, e que iremos caso nada nem ninguém nos pare. é preciso que algo nos detenha, ISSO NÃO PODE CONTINUAR ASSIM. no entanto, eu mesma não quero sobreviver a nós.