sábado, 21 de novembro de 2015

de manhã, 
tomei leite com nescafé
nescafé, para mim, só fica bom com leite
e pouco açúcar
e canela, mas canela nem sempre 
e bastante açúcar, às vezes

de sobremesa, 
tomei sorvete de açaí

no fim da tarde, 
eu caminhava pelas ruas do bairro
tão feliz tão feliz que é horário de verão

já de noite,
tomei umas brahmas na varanda da vizinha
entre roupas estendidas, um tanque, e azulejos descombinando
tivemos uma boa conversa

agora mais tarde,
comi dois ovinhos moles
e de sobremesa
cerejas em calda
mais até do que devia

no banho,
usei o sabonete johnson novo
comprei quatro deles, cada um com um aroma

e depois, tomei o tal colágeno hidrolisado 
para dar fim à condromalácia

estou desconfiada quanto à eficácia do tal suplemento
mas mentalizo assim "joelhinho, fica bom"

o prazer que eu tenho na irrelevância



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Anteontem tinha roda de capoeira, na rodoviária. Estava bonito, cada um parecia uma mola; é preciso ser muito forte para envergar e não se quebrar nem desequilibrar. A força nem sempre é dura. Entre a rodoviária e minha casa, tem uma ponte. Debaixo da ponte corre um rio. E é bonito enquanto eu passo sete passos olhando o rio. Minha pressa é menor, por sete passos. O rio está baixo, mas eu não lamento o rio baixo, como fazem as outras pessoas. Eu aprecio as pedras, que só aparecem porque o rio está baixo. Hoje de manhã, a gata da vizinha apareceu aqui. É uma gata marrom, muito peluda e muito séria, mas que não rejeita carinho. Sentei-me ao chão, na varanda, para mimar a gata. Não por ela, por mim. A vizinha apareceu, encontrou a gata, não se aproximou, apenas olhou e sorriu, solidária e um pouco surpresa. Agora à noite, voltando do restaurante, parei uns instantes para alisar a testinha de um cão vira-lata preto bem pretinho, que vive triste na escada da vila. Vive ensimesmado, quase não se mexe. Ainda não tive coragem de perguntar se ele tem dono ou ao menos alguém que cuide, porque tenho forte tendência a abarcar responsabilidade, e responsabilidade traz preocupação. Omitir-se pode não ser correto, mas às vezes encontramos mais tranquilidade na omissão; é só listar justificativas para sanar a culpa e uma culpa pequena vai sendo absorvida pelos dias, e compensada pelo sofrimento das pequenas injustiças a que somos acometidos. No fim, tudo é uma questão de discurso. Incrível como essa cidade tão cedo se tornou familiar. Tudo bem, até hoje não consegui descobrir a lógica das linhas de vans e kombis, mas saindo do ponto final, e virando referência na localidade, logo algum motorista me grita apressado Fórum-Fórum! Eu tenho esse talento: o de transformar lugares e pessoas rapidamente em coisas familiares. O cão não festejou meu afago, e de repente eu me vi no cão. Tão só, tão só, tão sedimentado na solidão, que nem uma possibilidade de companhia lhe entusiasma. A solidão de quem conhece o desengano, o cansaço do mundo nos olhos, enfiado no poço da descrença. Ainda assim, eu resisto, eu nutro uma fé na comunhão. Apesar de eu ser muito só (ou mesmo por isso, talvez, quem sabe), qualquer lugar é casa, qualquer pessoa é irmã. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

não importa o que eu procure
eu só encontro
sarna para me coçar

domingo, 8 de novembro de 2015

a paz
não raro
é um cômodo da casa
aonde não consigo chegar

sábado, 7 de novembro de 2015

não tenho do que me queixar, solidão
já fui muito só
as vezes em que fui mais só, havia um homem ao meu lado
e agora sem ninguém ao lado ainda sou só
mas sabe o quê
para quem aprende a ser só
a solidão
é de um empoderamento enorme

domingo, 1 de novembro de 2015

se você estivesse aqui
eu teria ido dormir mais cedo,
veria mais sentido nas manhãs.

faz falta
o sossego fingido que você me dava.

e ainda que durante o dia
eu veja mil vantagens em não te ter mais,

até nas noites mais quentes
eu preciso de você ao meu lado
por motivos de: relógio biológico; termorregulação.

sábado, 31 de outubro de 2015

às vezes, a gente pensa que está
prestes a chegar a um ninho seguro
e vem um mar em ressaca
e nos afasta da felicidade
nosso desejo é destroçado
e a paz é algo que só existe na distância

a vida vai
assozinhando a gente

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Certa feita, Daniel me disse que eu sempre dava a impressão de que não dizia tudo o que pensava. Passei a dizer mais coisas e Daniel me disse que eu era perigosa porque era honesta (como na música do U2). E agora, quando digo o que merece ser dito, as palavras viram cães ferozes e cavalos selvagens, sem quem possa domá-los. Parece violência mas é só verdade.
Augusto veio a minha porta
Aflito, disse que me amava
Me pediu em casamento
E disse algumas outras palavras,
bem decidido

Olhei bastante e muito atenta
Me demorei muito naqueles minutos
Silenciosa
Sem reação

Não reconheci em Augusto
o homem que amei

Eu letárgica
nada sentia
nem mesmo curiosidade
de saber o que havia lhe acontecido
ao longo de todo esse tempo
em que eu nada soube

É triste pensar
que um grande amor
mais ali na frente
logo depois
pode parecer
algo  c o m p l e t a m e n t e  dispensável

domingo, 13 de setembro de 2015


Sina é o destino que nos sobra,
quando nenhum dos que a gente escolheu
deu onde a gente queria.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

um dia acompanhei papai ao rio
fomos ao detran
papai atravessou a rua fora do sinal
e me deixou para trás
presidente vargas
eu criança fora da faixa
papai do outro lado
duas pistas entre nós
presidente vargas
e papai sem nem se dar conta

desde então
tem sido meu fado
correr perigos
acompanhar homens
que só sabem andar sozinhos

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Pé-direito alto em descontínuo VIII

Voltávamos da cidade quando João disse que passaríamos para ver Madalena. Eu disse que não tinha paciência para Madalena, e João rebateu que Madalena era minha única irmã, e que em respeito à memória de meus pais deveríamos, ao menos de tempos em tempos, procurá-la. Eu disse que não era certo visitar os outros sem aviso, ainda mais na hora do almoço. Mas João sabia que Madalena não era de protocolos e não se incomodaria com nossa chegada inesperada. Ao contrário, Madalena se alegraria.

João inventa de ter paciência para pessoas com quem não tenho paciência. É uma forma de remendar minha frieza e minhas ausências. João é conciliador, compensa meus vícios com seus cuidados. Os outros reparam. Não me importo e faço até gosto. Que os outros vejam como eu e João nos compomos. Há entre certos casais combinações mudas que tramam e sustentam uma relação. Muitas coisas miúdas e mudas laçam nossos anos de união.

Bati o pé. Difamei Madalena. Esperneei, mesmo sabendo que seria inútil, porque João faz coisas contra minha vontade. Lá chegamos. À casa de Madalena, o muquifo em que ela transformou a herança que lhe coube de nossos pais. Tudo fora do lugar, Madalena é mesmo dada à desordem. João muito simpático, eu resistente. Eu sempre resistente a algo, a todo o momento. Não há um momento, meu Deus, na vida, em que eu não esteja resistindo a algo. Eu resistindo ao nojo que a casa me provocava. Madalena parecia não ver. Madalena era uma cega eufórica. Só bradava 'Que bom que vocês vieram, vocês nunca vêm, Olha, olha a tv que eu comprei, Olha, olha o computador novo, olha, Vocês não fazem ideia do que é essa tv, Bebeto está me ensinando a usar o Facebook no computador novo, postamos fotos do passeio de domingo, Olha como eu tô moderna, olha'.

Bebeto é o novo caso de Madalena. Um menino que ela colocou para dentro de casa. Mas gente, esse menino não tem família? Fiz que fiz vista grossa para aquele desaforo todo. Agora você vê, Madalena com um rapazinho recém saído da puberdade. Esse menino completou o científico, pelo menos? A tonta não vê que o que ele tem de músculos tem de aproveitador. Sem camisa, almoçando no sofá da sala, copo de refrigerante no chão. Prato Duralex, talheres com cabo de plástico. Mas onde foi que Madalena aprendeu ou aprendeu a admitir esses modos suburbanos?! Às vezes, eu penso que ainda bem que papai e mamãe já se foram para não testemunharem tamanha pouca vergonha. O gigolô é mais novo que Toninho. Madalena não enxerga que está velha e criando filho dos outros. 'Ah, fica, vai, vocês quase não vêm, Aproveitem, tem almoço, Hoje é dia da empregada, ela faz comida a mais, para congelar'.

'João, me tira agora daqui'. E João sorrindo, quase debochando 'A gente adora carne seca'.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Às vezes, me lembro da casa de G. Dos móveis despencando, do sofá-cama duro, do cheiro de cigarro, da janela que dava para um morro e um mato, para um oposto de cidade. Às vezes, me lembro da casa de D. Do cheiro do armário, da janela bem grande que ele quase nunca abria, dos móveis que trouxera da casa dos pais, de abraçar a mim mesma forte por dentro para não despedaçar quando encontrava um brinco, um batom ou uma jaqueta de outra mulher. Às vezes, me lembro da casa de B., do cheiro de material de construção, da cafeteira, da sanduicheira, do fogão, da máquina de lavar, do espelho do lado de fora do armário, de achar que estávamos estreando uma nova casa e uma nova vida. 

Trago todas as casas em mim, e não tenho onde morar. Aonde vou, não demoro. Logo parto, logo desgarro. Lanço-me ao mundo, resiliente e indefinida, sem audácia ou ousadia, e ainda que o mundo seja apenas um município do interior. Assumo que o faço por ponderada valentia, mas temo ser sina. Aprendi a partir, aprendi a deixar casas, cheiros, armários, sonhos e rotinas. Não tenho onde morar, então caminho. Vou me acostumando a nunca mais querer ou precisar de uma casa para morar. Nada possuo, nem as casas que carrego comigo. Não há o que me represe. Periga eu esquecer como se fica, como se habita e como se cuida. E de tanto partir, não ter mais volta. Por sina, ou valentia.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

diálogos inescrupulosos II

-eu ainda penso em você.
-eu ainda te acho um idiota.
um dia pensei
que sabia amar
quem possuía vocação para a espera

alguns homens tiveram
minhas tantas horas
de preparo e zelo

os homens se foram
restou o tempo

é noite
ninguém virá

não há desespero

na espera
eu aconteço

sábado, 5 de setembro de 2015

Ana
um dia
sonhou em ter um namorado
que lhe presenteasse com um par de patins
e a levasse para tomar sorvete na praça

Ana
nunca soube
no entanto sempre desconfiou
que o verdadeiro amor
era adolescente

Mas Ana cedo amadureceu
caíram em desuso os amores não consumados
e os homens a quem se entregou
foram todos
diferentes versões
de um mesmo
e imenso desastre

Ana não tem nojo dos casais que fazem
carícias escandalosas nas ruas à luz do dia
nem julga as meninas que sonham em se casar com seus namorados

porque Ana
que aprendera a viver sobre os escombros dos amores desmoronados
depois de tantos finais
não zomba do que aos outros parece ridículo
não apedreja o que aos outros é imoral

porque se ainda há ilusão, no mundo
se ainda há lascívia nas calçadas sob o sol do meio-dia
ainda a vida pulsa

e mesmo que os amores sejam sucessivos e incansáveis desastres,
apesar do desastre e maior que ele
há vida

os desastres são a ressaca dos sonhos
-o lamento pujante, inconformado, da perda

vencer o desastre requer vivê-lo

mas logo isso não é novo
e logo se aprende:
viver é algo
que se faz com insistência

quarta-feira, 3 de junho de 2015


os arredores da casa cheiram a xixi de gato
falo alto reclamando
do cheiro do xixi de gato
finjo estar contrariada
mas o fato é que
cheiro de xixi de gato
me traz um conforto enorme
tenho estado avessa
às coisas feitas para durar
às construções que vencem o tempo
a passados sólidos

tenho tido muito apreço
pelas coisas sem história alguma
- se é possível não ter história

tenho tido desejos
de renovação

domingo, 19 de abril de 2015

a história das minhas paixões: construir uma embarcação, domar o mar, sozinha, em uma noite sem lua, vencendo as tempestades, chegar, exausta, aos pés de quem amo, e tímida e mansa não saber pedir o abraço que mereço receber.



"Sonhei que construía um barco
Sonhei que sabia o que fazia
e com este me lançava ao mar
uma noite sem lua
em que não se distinguia
água de céu
da negrura de um horizonte
que fundia terra com mar

a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade

Córsega
Córsega
Córsega

no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que fosse
meu barco chegava a teus pés

tantas noites de alto-mar
cavalgando tempestades
finalmente estou pronta para fincar
a âncora da vitória

a estrela e o timão
Vento, conduza minha intuição
não há outra guia além desta
sensação de imensa liberdade

Córsega
Córsega
Córsega
Córsega

no sonho te buscava
e no mesmo te encontrava
por mais incrível que pudesse ser
depois de ter domado o mar
não sobra mais coragem
neste corpo exausto
tímida e mansa não sei pedir
o abraço que mereço receber"

sexta-feira, 17 de abril de 2015

volta, Binho
num guento mais abraçar travesseiro
tomar café feito por mim
não ter quem me espere quando eu saio do banho

sério, Binho, volta logo
num guento mais ter insônia
fritar bolinho a noite inteira
abraçando travesseiro
não ter quem esperar sair do banho

Binho, volta antes que eu quebre algum copo
que eu manche o piso,
que eu esqueça a torradeira ligada,
que eu bata o carro

Binho, volta,
eu tô ficando insana
o tempo não tem feito as coisas mais fáceis
e eu num guento mais abraçar travesseiro