eu te amava
mas passou
quinta-feira, 5 de março de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Eu sei,
meu bem,
muito bem,
o que pensas de mim
Sei também,
meu bem,
que te pesa minha falta,
mas que, entrelaçado a tua saudade,
se espalha um desejo de vingança,
um impulso de ameaça para a qual não tens coragem
Sei bem,
meu bem,
o que pensas de mim
Conheço tuas queixas,
sei que tens dito
aos outros
que tenho sido a mais desprezível das mulheres,
a mais indiferente, a mais bruta, a mais cruel,
que tenho sido ácida, amarga e estúpida
Não sei bem,
meu bem,
como te dizer,
que desconheço amor sem dúvida,
que não sei amar sem resistência,
que sou atravessada por forças díspares,
que tudo em mim é irreversível
Incomodo-te
porque não disputo o domínio
porque tenho a liberdade como condição
e liberdade, para ti,
é como não ter uma casa
para onde voltar
Vês na liberdade o abandono
quando nela vejo a sedução do imponderável
Meu bem,
não te vejo em tudo,
há momentos em que te esqueço,
não me vem teu nome,
não me vem teu rosto;
há, sim, momentos em que não existes
Tens de pensar,
meu bem,
que se há relutância na minha conduta,
se há rudeza em minhas palavras,
há também muita verdade:
não há de fato nada
quando supões omissão
Tu te intrigas
quando afirmo
que não é da mágoa
que vem minha dureza
E tu, mais solitário que eu e minhas buscas,
te insurges bravio,
como quem vem de uma rebelião ensaiada,
dizendo
que só ofereço crítica
quando esperas de mim compreensão
Tens de entender
que minha crítica é meu zelo
é resultado de meu tempo, de minha análise, de minha reflexão
minha crítica é um corte cirúrgico nos teus dilemas, nos teus equívocos
e nos teus erros
minha crítica é também um prazer que cultivo,
e uma forma de cuidado,
meu diálogo, meu contato
se te critico é porque te compreendo
(porque exercito ver como vês)
e compreender não é aceitar
minha crítica não te abona
não exalta tuas virtudes
não perdoa quando queres perdão
minha crítica pede a tua prudência
mas só o que vês é
minha crítica te ferindo quando minha pretensão não é ferir
minha crítica é o que nos põe à prova,
é o que te desmonta,
é o que nos desconstrói,
é o que me interessa
minha crítica não dá o socorro que tu pedes
mas minha crítica é a delicadeza que tu não compreendes
- a única delicadeza que dedico
tu não acolhes
Eu sei bem
o que tens pensado,
o que tens dito aos outros,
que tenho sido a mais desprezível das mulheres,
a mais impetuosa, a mais bruta, a mais feroz
Pois saibas bem,
meu bem,
que tenho sido
a mais verdadeira das mulheres, a mais fiel
porque o pouco de doçura que tenho
é para ti que guardo
nos rasos sonhos que sonho
é tu quem figura
o pouco, muito pouco, que tenho
é a ti que dou
e ainda que eu não te satisfaça
quando, parecendo resignada, me ofereço
é com a parte de mim mais determinada que o faço
se te pareço agressiva,
é que a parte de mim que te alcança teve de vencer as correntezas adversas, minhas forças díspares,
e chega a ti desmedida
onde já não há oposição
mas tu és um homem,
que como os outros,
não vê beleza na escassez
és um homem que,
como os outros,
ao meu lado,
só vê ausência
na ironia do irremediável
meu bem,
muito bem,
o que pensas de mim
Sei também,
meu bem,
que te pesa minha falta,
mas que, entrelaçado a tua saudade,
se espalha um desejo de vingança,
um impulso de ameaça para a qual não tens coragem
Sei bem,
meu bem,
o que pensas de mim
Conheço tuas queixas,
sei que tens dito
aos outros
que tenho sido a mais desprezível das mulheres,
a mais indiferente, a mais bruta, a mais cruel,
que tenho sido ácida, amarga e estúpida
Não sei bem,
meu bem,
como te dizer,
que desconheço amor sem dúvida,
que não sei amar sem resistência,
que sou atravessada por forças díspares,
que tudo em mim é irreversível
Incomodo-te
porque não disputo o domínio
porque tenho a liberdade como condição
e liberdade, para ti,
é como não ter uma casa
para onde voltar
Vês na liberdade o abandono
quando nela vejo a sedução do imponderável
Meu bem,
não te vejo em tudo,
há momentos em que te esqueço,
não me vem teu nome,
não me vem teu rosto;
há, sim, momentos em que não existes
Tens de pensar,
meu bem,
que se há relutância na minha conduta,
se há rudeza em minhas palavras,
há também muita verdade:
não há de fato nada
quando supões omissão
Tu te intrigas
quando afirmo
que não é da mágoa
que vem minha dureza
E tu, mais solitário que eu e minhas buscas,
te insurges bravio,
como quem vem de uma rebelião ensaiada,
dizendo
que só ofereço crítica
quando esperas de mim compreensão
Tens de entender
que minha crítica é meu zelo
é resultado de meu tempo, de minha análise, de minha reflexão
minha crítica é um corte cirúrgico nos teus dilemas, nos teus equívocos
e nos teus erros
minha crítica é também um prazer que cultivo,
e uma forma de cuidado,
meu diálogo, meu contato
se te critico é porque te compreendo
(porque exercito ver como vês)
e compreender não é aceitar
minha crítica não te abona
não exalta tuas virtudes
não perdoa quando queres perdão
minha crítica pede a tua prudência
mas só o que vês é
minha crítica te ferindo quando minha pretensão não é ferir
minha crítica é o que nos põe à prova,
é o que te desmonta,
é o que nos desconstrói,
é o que me interessa
minha crítica não dá o socorro que tu pedes
mas minha crítica é a delicadeza que tu não compreendes
- a única delicadeza que dedico
tu não acolhes
Eu sei bem
o que tens pensado,
o que tens dito aos outros,
que tenho sido a mais desprezível das mulheres,
a mais impetuosa, a mais bruta, a mais feroz
Pois saibas bem,
meu bem,
que tenho sido
a mais verdadeira das mulheres, a mais fiel
porque o pouco de doçura que tenho
é para ti que guardo
nos rasos sonhos que sonho
é tu quem figura
o pouco, muito pouco, que tenho
é a ti que dou
e ainda que eu não te satisfaça
quando, parecendo resignada, me ofereço
é com a parte de mim mais determinada que o faço
se te pareço agressiva,
é que a parte de mim que te alcança teve de vencer as correntezas adversas, minhas forças díspares,
e chega a ti desmedida
onde já não há oposição
mas tu és um homem,
que como os outros,
não vê beleza na escassez
és um homem que,
como os outros,
ao meu lado,
só vê ausência
na ironia do irremediável
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Marcel agia como se estivesse convicto de que tinha bons motivos para fazer o que quer que fosse. Suponho que Marcel tenha chegado a essa conclusão em algum momento distante, e de maneira subterrânea. O fato é que, depois dessa sentença, Marcel jamais revisitara esse pensamento. Porque Marcel refletira em um momento originário, Marcel não voltaria a refletir jamais. Marcel agia obstinado, acreditava que fazia escolhas importantes. Marcel tinha - seus - bons motivos para os atos ilegítimos. E quando apanhava da vida - sem glória - pensava, no seu íntimo - suponho eu -, que se a vida lhe batia assim tão corriqueira, tão grave e tão destinada, é que a vida só batia em quem era capaz de suportar. E suportava, sem carma nem cruz, sem prazer nem dor, o que julgava ser seu prêmio. Apanhar da vida, talvez fosse, para Marcel, sua própria glória, ou, ainda, a única espécie de troca que conhecia.
Marcel era a imagem desfigurada de um homem, a personificação da iniquidade. A Marcel, nem choro nem vela. Nenhum lamento ou comiseração. Apenas a vida que batia sem arrebatar.
Esboço desconexo de um romance político I
Teu nome só tem duas letras
e é tão leve quanto o ar
uma brevidade boa de se dizer
um rio que corre
um suspiro que se desmancha
um instante mínimo,
tão breve quanto teu nome
e tão presente quanto o ar
Um incêndio manso nos tomou
Um incêndio que não destrói
ou que só destrói o que há de mau
e prepara o campo
para reconstruirmos dentro de nós
um mundo novo em paz
Traímos a guerra
nossos povos
nossos pais
Porque obedecemos
porque nos omitimos
porque jogamos o jogo
(ou porque nos convencemos da mesma ira)
os credos viraram bandeiras, partidos, milícias e logo viraram sangue
Mas em um território neutro
-bandeira branca-
vivemos um intervalo de lucidez
Na guerra em que nos colocaram
estou do lado oposto ao teu
Mas na trégua
somos amantes
Estabelecemos
de modo perspicaz e tácito
que entre nós
não haveria
vítima
ou algoz
Quando amantes
fomos a trégua
E eu só pensava:
como é difícil
não importar
a guerra
para dentro da gente
E eu fico agora aqui
a imaginar
as explosões no céu
as explosões no chão
as noites de festa e cegueira de Tel Aviv
a lógica da tua língua que não sei falar
O amor é uma paz no meio da guerra
O amor é uma guerra em meio a outra
O conflito
a promessa
a terra
a fronteira
a religião
o ateísmo
o deserto
a fúria
o refúgio
a descrença
a origem
a etnia
o novo
a guerra
a paz:
A gente nunca é uma coisa só.
Teu nome só tem duas letras
e é tão leve quanto o ar
uma brevidade boa de se dizer
um rio que corre
um suspiro que se desmancha
um instante mínimo,
tão breve quanto teu nome
e tão presente quanto o ar
Um incêndio manso nos tomou
Um incêndio que não destrói
ou que só destrói o que há de mau
e prepara o campo
para reconstruirmos dentro de nós
um mundo novo em paz
Traímos a guerra
nossos povos
nossos pais
Porque obedecemos
porque nos omitimos
porque jogamos o jogo
(ou porque nos convencemos da mesma ira)
os credos viraram bandeiras, partidos, milícias e logo viraram sangue
Mas em um território neutro
-bandeira branca-
vivemos um intervalo de lucidez
Na guerra em que nos colocaram
estou do lado oposto ao teu
Mas na trégua
somos amantes
Estabelecemos
de modo perspicaz e tácito
que entre nós
não haveria
vítima
ou algoz
Quando amantes
fomos a trégua
E eu só pensava:
como é difícil
não importar
a guerra
para dentro da gente
E eu fico agora aqui
a imaginar
as explosões no céu
as explosões no chão
as noites de festa e cegueira de Tel Aviv
a lógica da tua língua que não sei falar
O amor é uma paz no meio da guerra
O amor é uma guerra em meio a outra
O conflito
a promessa
a terra
a fronteira
a religião
o ateísmo
o deserto
a fúria
o refúgio
a descrença
a origem
a etnia
o novo
a guerra
a paz:
A gente nunca é uma coisa só.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
construíste
trapiches invisíveis
como dedos
sem me alcançar
traço rotas
me desoriento
só eu sei o que é
ser navio e não saber ancorar
não vi teus dedos
nem os busquei
o oceano é imenso
e teus dedos, mínimos
sou cego cego
não sei ver nem ficar
e insisto bravio
na vida à deriva
barco querendo tempestade
costa dispensando quebra-mar
não há gentileza que me represe
prefiro a rudeza dos desenganos
sou uma empáfia
um gesto bruto
não sei ver nem ficar
trapiches invisíveis
como dedos
sem me alcançar
traço rotas
me desoriento
só eu sei o que é
ser navio e não saber ancorar
não vi teus dedos
nem os busquei
o oceano é imenso
e teus dedos, mínimos
sou cego cego
não sei ver nem ficar
e insisto bravio
na vida à deriva
barco querendo tempestade
costa dispensando quebra-mar
não há gentileza que me represe
prefiro a rudeza dos desenganos
sou uma empáfia
um gesto bruto
não sei ver nem ficar
Há tantas formas de se dizer adeus
O silêncio é uma delas
Há tantas formas de se dizer amor
O silêncio é uma delas
Ninguém ama aos berros
Ninguém parte sem emudecer
É no silêncio que se ama
É no silêncio que se parte
Amei mais
quando não disse pa-la-vra
Parti de fato
quando já não tinha mais força ou vontade para te fazer ouvir minha voz
Pode-se dizer adeus, pode-se dar muitos passos na direção oposta
Pode-se fazer declarações, pode-se virar do avesso para se demonstrar o que se sente
Mas no fim das contas
as coisas
só acontecem
dentro da gente
(e lá dentro
as coisas acontecem
em silêncio)
O silêncio é uma delas
Há tantas formas de se dizer amor
O silêncio é uma delas
Ninguém ama aos berros
Ninguém parte sem emudecer
É no silêncio que se ama
É no silêncio que se parte
Amei mais
quando não disse pa-la-vra
Parti de fato
quando já não tinha mais força ou vontade para te fazer ouvir minha voz
Pode-se dizer adeus, pode-se dar muitos passos na direção oposta
Pode-se fazer declarações, pode-se virar do avesso para se demonstrar o que se sente
Mas no fim das contas
as coisas
só acontecem
dentro da gente
(e lá dentro
as coisas acontecem
em silêncio)
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
diz-se que ninguém é substituível. diz-se que todos são substituíveis. substitui-se o lugar, o cargo, o título, a função, o espaço, não a presença, o olhar, o intangível. e te conheço tão odiosa e profundamente, a ponto de saber que haverá, sempre, dentro de ti, a marca de minha ausência. digo isso não somente por quem eu sou, mas por quem és. és um tipo mesquinho de homem: o tipo que não se dá. mas quanto a mim ensaiaste, projetaste ser um homem melhor do que és. sem sucesso. te ostentavas firme e inabalável. e eras. porque passaste pela vida anestesiado, em constante negação. não eras forte, eras apenas alheio. eu não. eu me firo com o mundo, eu me desmancho, eu me refaço, eu incalculáveis vezes renasci. e tu te atraías, mesmo sem se dar conta, por essa verdadeira força: a força que é não ser imune, mas resistir. tu te atraías pelo desafio das nossas diferenças. ou melhor: a princípio, tu não vias desafio em mim. apenas distração. só muito depois é que viste desafio, quando, para mim, tu já eras somente distração.
depois de me perder
eis tua autocondenação:
nunca
nada nem ninguém no mundo
além de mim
terá minha pulsação
sábado, 22 de novembro de 2014
a memória
às vezes
é uma praia esquecida
com um farol
que vira e mexe vira e ilumina
um mar de escuridão
quanto mais necessário o farol
(nas noites sem lua)
mais perigosa sua luz
quanto mais negra a memória
quanto mais abandonada
mais susto se leva
à descoberta da luz
como se nus
fôssemos pegos em flagrante
e tudo o que é
proibido
acobertado
e degradante
fosse
de repente
inevitável
às vezes
é uma praia esquecida
com um farol
que vira e mexe vira e ilumina
um mar de escuridão
quanto mais necessário o farol
(nas noites sem lua)
mais perigosa sua luz
quanto mais negra a memória
quanto mais abandonada
mais susto se leva
à descoberta da luz
como se nus
fôssemos pegos em flagrante
e tudo o que é
proibido
acobertado
e degradante
fosse
de repente
inevitável
você se intriga
eu não me entrego
a gente briga
você bolero
eu canto a pedra
você na trave
eu toda prosa
você mais tarde
a gente brinca
você não nota
eu falo sério
você marmota
eu tanta coisa
você em outra
você procura
a gente some
eu desconverso
você assume
a gente sabe
mas eu não digo
a gente junto
você enrola
eu quebro o gelo
você demora
a gente suspende
e vai embora
você volta
eu não vejo a hora
a gente se entende
você se apavora
a gente mente
você desaprova
eu
presente
você
escape
eu
transparente
você
disfarce
eu
volúvel
você
indissolúvel
eu
fluidez
você
solitude
a gente
desencontra
a gente
busca
a gente
contorna
r-e-v-i-r-a-v-o-l-t-a
eu não me entrego
a gente briga
você bolero
eu canto a pedra
você na trave
eu toda prosa
você mais tarde
a gente brinca
você não nota
eu falo sério
você marmota
eu tanta coisa
você em outra
você procura
a gente some
eu desconverso
você assume
a gente sabe
mas eu não digo
a gente junto
você enrola
eu quebro o gelo
você demora
a gente suspende
e vai embora
você volta
eu não vejo a hora
a gente se entende
você se apavora
a gente mente
você desaprova
eu
presente
você
escape
eu
transparente
você
disfarce
eu
volúvel
você
indissolúvel
eu
fluidez
você
solitude
a gente
desencontra
a gente
busca
a gente
contorna
r-e-v-i-r-a-v-o-l-t-a
Diário do irrelevante
Meu armário de despensa foi tomado por traças e passei dois dias em função de sua limpeza e descarte de alimentos. Como dizer a Demétrio que esse é o tipo de coisa que ocupa minha vida? O que prende Demétrio?
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Fui ao supermercado e ao açougue. Cozinhei por horas. Demétrio nunca provará o sabor da minha comida. Demétrio aprecia condimentos?
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Inventariei a casa e listei os utensílios faltantes: cortadores de legumes, uma nova tábua para carnes, novas facas, nova peneira, fio de extensão. Fui ao bazar. Comprei-os. Limpei os interruptores, o telefone, o liquidificador e a sanduicheira. Estão como novos. Saberia Demétrio admirar meu capricho? Ou para ele esses cuidados seriam irrelevantes?
.
.
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.
Organizei uns papéis, listei meus afazeres, liguei para Cláudia, Francesca e Antônia. Com Antônia, gastei três horas. Comentamos as notícias, falamos sobre a doença de seu pai e sobre como as relações têm se depreciado. Demétrio daria conta de uma longa e profunda conversa? Demétrio fugiria de quais temas?
.
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.
Fui ao cartório. Quero deixar tudo pronto para quando eu morrer. A vida das pessoas se trava muito por causa de burocracias. Eu que trabalhei décadas com inventários bem sei. Vou deixar tudo organizado. Não quero que meu nome e minha morte se arrastem em prateleiras empoeiradas ou em nuvens eletrônicas criptografadas e diários e notificações oficiais. Quando eu morrer, quero que meu nome vá comigo. E que fique só, em meu lugar, um pousar de passarinho. Qual seria o apego de Demétrio pelo próprio nome, pelos próprios bens? Que legado Demétrio deixará?
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Categorizei minhas fotografias. As digitais e as físicas. Surpreendi-me com meu olhar. Não por tê-lo perdido ou me distanciado, mas por ter me reconhecido ainda mais naquelas fotografias - minhas pequenas traduções do mundo. Cada clique é um abraço. O que prende o olhar de Demétrio? Demétrio vê beleza no que eu vejo?
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Ouvi música triste e chorei. O que atinge Demétrio?
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Adiei o dia todo uma ida à cidade vizinha. O dia estava muito quente. Tomei três picolés e dormi. Demétrio tem preguiça?
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Comprei bilhetes para uma viagem. Duas horas depois, cancelei. O entusiasmo não durou. Ou deixei de ir para que o entusiasmo não desvanecesse. Havia alguém que me esperava, naquele destino. Desapontei-o. Demétrio sente culpa com frequência? Demétrio desiste das coisas?
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Fui ao supermercado e ao açougue. Cozinhei por horas. Demétrio nunca provará o sabor da minha comida. Demétrio aprecia condimentos?
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Inventariei a casa e listei os utensílios faltantes: cortadores de legumes, uma nova tábua para carnes, novas facas, nova peneira, fio de extensão. Fui ao bazar. Comprei-os. Limpei os interruptores, o telefone, o liquidificador e a sanduicheira. Estão como novos. Saberia Demétrio admirar meu capricho? Ou para ele esses cuidados seriam irrelevantes?
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Organizei uns papéis, listei meus afazeres, liguei para Cláudia, Francesca e Antônia. Com Antônia, gastei três horas. Comentamos as notícias, falamos sobre a doença de seu pai e sobre como as relações têm se depreciado. Demétrio daria conta de uma longa e profunda conversa? Demétrio fugiria de quais temas?
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Fui ao cartório. Quero deixar tudo pronto para quando eu morrer. A vida das pessoas se trava muito por causa de burocracias. Eu que trabalhei décadas com inventários bem sei. Vou deixar tudo organizado. Não quero que meu nome e minha morte se arrastem em prateleiras empoeiradas ou em nuvens eletrônicas criptografadas e diários e notificações oficiais. Quando eu morrer, quero que meu nome vá comigo. E que fique só, em meu lugar, um pousar de passarinho. Qual seria o apego de Demétrio pelo próprio nome, pelos próprios bens? Que legado Demétrio deixará?
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Categorizei minhas fotografias. As digitais e as físicas. Surpreendi-me com meu olhar. Não por tê-lo perdido ou me distanciado, mas por ter me reconhecido ainda mais naquelas fotografias - minhas pequenas traduções do mundo. Cada clique é um abraço. O que prende o olhar de Demétrio? Demétrio vê beleza no que eu vejo?
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Ouvi música triste e chorei. O que atinge Demétrio?
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Adiei o dia todo uma ida à cidade vizinha. O dia estava muito quente. Tomei três picolés e dormi. Demétrio tem preguiça?
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Comprei bilhetes para uma viagem. Duas horas depois, cancelei. O entusiasmo não durou. Ou deixei de ir para que o entusiasmo não desvanecesse. Havia alguém que me esperava, naquele destino. Desapontei-o. Demétrio sente culpa com frequência? Demétrio desiste das coisas?
sábado, 4 de outubro de 2014
Se me arrependi, foi de não ter te traído. Hoje, penso que teria sido ao menos divertido. Ter te traído com todo e qualquer tipo de homem. Perdedores, artistas, atletas, loucos. Tipos de homens que desprezarias. Se me arrependi, foi de não ter trocado teu nome com o de um antigo amor, como planejei tantas vezes, para te ferir. Se me arrependi, foi de não ter te maltratado, como faço agora, em pensamento.
~
Tenho sido perversa. E me divertido muito mais.
Primeiro eu quis
Um resto de luz
Uma coisa qualquer em que eu pudesse me pegar
Nada nem ninguém me devolveu a fé
Tive que buscar Outras palavras
Banhar-me em Outros rios
E terminar na correnteza inevitável
Que leva à saudade vazia
Lamentei a demasia
Envergonhei-me de minha doação
Prometi não ser a mesma
Vesti-me de apatia
Deslizei sobre Outros corpos
Ninguém mais me possuía
Nenhuma dor me atingia
Distraí-me com homens ricos, homens belos, fantasias
Brilho, bebida e glória
Nem amor nem agonia
Desaguei-me na saudade
Na correnteza
Das horas frias
Nem amor nem agonia
Tinha ao menos a lembrança
Das histórias
Daqueles dias
Um resto de luz
Uma coisa qualquer em que eu pudesse me pegar
Nada nem ninguém me devolveu a fé
Tive que buscar Outras palavras
Banhar-me em Outros rios
E terminar na correnteza inevitável
Que leva à saudade vazia
Lamentei a demasia
Envergonhei-me de minha doação
Prometi não ser a mesma
Vesti-me de apatia
Deslizei sobre Outros corpos
Ninguém mais me possuía
Nenhuma dor me atingia
Distraí-me com homens ricos, homens belos, fantasias
Brilho, bebida e glória
Nem amor nem agonia
Desaguei-me na saudade
Na correnteza
Das horas frias
Nem amor nem agonia
Tinha ao menos a lembrança
Das histórias
Daqueles dias
quem sou eu
em branco
à noite
ou então coçando a dobra dos peitos suados
andando encurvada pela casa
sentindo pontada no estômago
com a cabeça desfarelada
a confusão do mundo
leva e traz as pessoas
engana
dilacera
desencontra
atropela
tem é que se buscar um espaço
não de ordem
mas de trégua
uma brecha
uma centelha
um desatino
uma quimera
tem que se guardar na memória
alguns instantes de luz
que vão iluminar o caminho, depois
todo desejo de felicidade
é a lembrança de alguma felicidade
em branco
à noite
ou então coçando a dobra dos peitos suados
andando encurvada pela casa
sentindo pontada no estômago
com a cabeça desfarelada
a confusão do mundo
leva e traz as pessoas
engana
dilacera
desencontra
atropela
tem é que se buscar um espaço
não de ordem
mas de trégua
uma brecha
uma centelha
um desatino
uma quimera
tem que se guardar na memória
alguns instantes de luz
que vão iluminar o caminho, depois
todo desejo de felicidade
é a lembrança de alguma felicidade
Se te amava
Nem me lembro
Amo abajures, amo azuis, amo o relento
Posso mesmo ter te amado
Se te amava
É bem possível
Que por muito tempo
Não te visse como és
(E te achasse mais incrível)
Mas um outro alguém
Revestido de minha poesia
Transbordamento do meu desejo
É bem possível que tenha te amado
Amo margens, amo vilas, amo o tempo
Por que não amaria
Um menino desarmado
Brincando de soldado
Inventando mil batalhas
Tentando dominar o vento?
Se te amava
É que eras
Apenas um pretexto
Para imensidões e profundezas
Que de dentro de mim
Queriam reunião
Se te amava
(Se é que te amei)
É que em algum momento
Eu tenha pensado
Que me conceder a ti
Me faria menos só
Se te amava
Me enganei
Se te amei
(E já nem me lembro)
Era
Uma febre que passou
Uma insistência qualquer
Um erro necessário
Se ter te amado
(Como eu não me lembro)
Me fez quem sou agora
-banho de cachoeira,
trilha íngreme,
mar aberto -
ter te amado me curou
da ilusão do amor
E eu já sem tanta ilusão
Agora sou mais feliz
Não porque sonho menos
Mas porque sei lidar
Com a verdade e o horror
Nem me lembro
Amo abajures, amo azuis, amo o relento
Posso mesmo ter te amado
Se te amava
É bem possível
Que por muito tempo
Não te visse como és
(E te achasse mais incrível)
Mas um outro alguém
Revestido de minha poesia
Transbordamento do meu desejo
É bem possível que tenha te amado
Amo margens, amo vilas, amo o tempo
Por que não amaria
Um menino desarmado
Brincando de soldado
Inventando mil batalhas
Tentando dominar o vento?
Se te amava
É que eras
Apenas um pretexto
Para imensidões e profundezas
Que de dentro de mim
Queriam reunião
Se te amava
(Se é que te amei)
É que em algum momento
Eu tenha pensado
Que me conceder a ti
Me faria menos só
Se te amava
Me enganei
Se te amei
(E já nem me lembro)
Era
Uma febre que passou
Uma insistência qualquer
Um erro necessário
Se ter te amado
(Como eu não me lembro)
Me fez quem sou agora
-banho de cachoeira,
trilha íngreme,
mar aberto -
ter te amado me curou
da ilusão do amor
E eu já sem tanta ilusão
Agora sou mais feliz
Não porque sonho menos
Mas porque sei lidar
Com a verdade e o horror
Juro que tentei
te amar sem críticas
te amar apesar de tua dureza
te amar apesar de tuas dúvidas
te amar apesar de tuas certezas
Juro que quis
abandonar minha religião e fazer da tua palavra meu credo
me render a tuas vontades
perder o medo de te querer
E te amei
apesar de minhas críticas
apesar de tuas críticas
carregada sempre de uma saudade incurável
(porque nunca nos alcançávamos)
Juro que te amei
e consegui te amar
apesar de tudo em você
me negar permanência
me negar certeza
me negar calor
E como nada me concedias
passei a buscar
qualquer coisa
que me consolasse de tanto amor
Te amei
no desconforto do teu me ignorar
Mas fui crescendo tão grande
no avizinhamento de tua ausência,
fui me habituando tanto a ser sem ti do teu lado,
que ser sem ti e sem teu lado me doeu bem menos
Construí tantas pontes dentro de mim
criei um mundo tão meu, para me distrair da tua distância
que sofrer tua distância já era bem menos interessante que passear no meu mundo
De tanto não te esforçares
-me entregava, e não me recebias-,
devolvi-me a mim
(ou tu me devolveras e eu soube me receber)
E de volta a mim,
assim tão plena,
descobri que amei
minha própria generosidade
minha inventividade
meu jogo de arriscar amar
Mas ainda tenho
saudades incuráveis
-a saudade de uma infância,
a saudade do ingênuo,
a saudade daqueles sonhos,
não de ti
te amar sem críticas
te amar apesar de tua dureza
te amar apesar de tuas dúvidas
te amar apesar de tuas certezas
Juro que quis
abandonar minha religião e fazer da tua palavra meu credo
me render a tuas vontades
perder o medo de te querer
E te amei
apesar de minhas críticas
apesar de tuas críticas
carregada sempre de uma saudade incurável
(porque nunca nos alcançávamos)
Juro que te amei
e consegui te amar
apesar de tudo em você
me negar permanência
me negar certeza
me negar calor
E como nada me concedias
passei a buscar
qualquer coisa
que me consolasse de tanto amor
Te amei
no desconforto do teu me ignorar
Mas fui crescendo tão grande
no avizinhamento de tua ausência,
fui me habituando tanto a ser sem ti do teu lado,
que ser sem ti e sem teu lado me doeu bem menos
Construí tantas pontes dentro de mim
criei um mundo tão meu, para me distrair da tua distância
que sofrer tua distância já era bem menos interessante que passear no meu mundo
De tanto não te esforçares
-me entregava, e não me recebias-,
devolvi-me a mim
(ou tu me devolveras e eu soube me receber)
E de volta a mim,
assim tão plena,
descobri que amei
minha própria generosidade
minha inventividade
meu jogo de arriscar amar
Mas ainda tenho
saudades incuráveis
-a saudade de uma infância,
a saudade do ingênuo,
a saudade daqueles sonhos,
não de ti
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
(pra ser um fado II)
Num quarto de hotel
Numa festa
Na rua
Num bar
Em meio a tanta gente
Ainda esperas por mim?
Tens pressa?
Tens a certeza de que chegarei?
O que intuis na tua espera?
Ainda esperas por mim?
Vais me receber de coração aberto?
Ou só me esperas para devolver ressentimento?
Me esperas com desejo, paz ou desalento?
Ainda por mim esperas?
Se me vires
Reconhecerás em mim aquela da tua espera?
Quem esperas quando esperas?
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
Quanta coisa
Na vida e em nós já mudou
Depois que a gente
No mundo se espalha
A gente não sabe mais se recolher
E a gente fica vagando, peregrinando
Inquieto
Pensando se alguém nos espera
Em qualquer parte
Com qualquer querer
Lembrando de alguém
Que talvez nos espera
Amando ainda uma memória
De alguém que depois de tanto tempo
tanto trem
tanta estrada
e tanto mar
Já é outro alguém
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
Ai, se é por mim a tua espera
Eu nada posso prometer
(pra ser um fado I)
A não amar ninguém
Estás condenado
À solidão
Estas condenado
Ao amargor
No berço da desilusão
Estás condenado
A não amar ninguém
Estas condenado
À solidão
Estás condenado
Ao desamor
Ao fado da resignação
Se não te encantas como eu
Se não balançam tuas mãos
Se não pereces no viver
Vais perecer neste vagão
A vida exige o mais de si
O amor exige doação
Se nao te entregas como eu
Estás fadado à solidão
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Os rios minguaram, estas semanas
Me lembraram a paz que pode vir da aridez
Joguei fora uns remédios passados da validade
Limpei umas gavetas
Comi banana d'água assada com canela
Fiquei mais na varanda
Senti frio no sereno
Gripei
Dancei forró
Planejei viagens
Paguei contas
Não sobrou dinheiro para viajar
Estirei uns músculos por sobrecarga, na academia
Senti dor, nos tempos de dor
Passou
Muitas coisas se sobrepuseram ao rasgo daqueles dias
A lembrança tua se juntou aos montes de outras lembranças que já não alarmam mais
Cantei Roberta Sá
Fingi que encontrei um novo amor
Não menti para ninguém
Comprei novos batons
Nunca me vi tão forte em mim
Tão certa
Estou indo bem
Não quero nem saber
Me lembraram a paz que pode vir da aridez
Joguei fora uns remédios passados da validade
Limpei umas gavetas
Comi banana d'água assada com canela
Fiquei mais na varanda
Senti frio no sereno
Gripei
Dancei forró
Planejei viagens
Paguei contas
Não sobrou dinheiro para viajar
Estirei uns músculos por sobrecarga, na academia
Senti dor, nos tempos de dor
Passou
Muitas coisas se sobrepuseram ao rasgo daqueles dias
A lembrança tua se juntou aos montes de outras lembranças que já não alarmam mais
Cantei Roberta Sá
Fingi que encontrei um novo amor
Não menti para ninguém
Comprei novos batons
Nunca me vi tão forte em mim
Tão certa
Estou indo bem
Não quero nem saber
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