domingo, 14 de setembro de 2008

eu e você, divididos entre a despedida e a permanência, um tédio enorme, a gente numa valsa a rodar no meio da tua sala pequena cheia de móveis, a gente a cantar a música que fala dos olhos do meu amor, arranjos musicais anos setenta, tua magreza caetana, meu esgotamento, nas nossas costas, um abismo enorme - os abismos tem um peso imenso, meu amor- meu amor se abisma em mim, meu amor não é você - meus vestidos estão gastos, meus olhos amarrotados, meu rosto disforme, no próximo passo um abismo imenso, nós imóveis, temerosos, metais crescendo na música, um silêncio breve, depois um silêncio que precede outro maior, depois mais silêncio em suspensão, depois é decretada a morte das palavras, depois tudo morto, e depois mais silêncio agora sem previsão, nós já não temos voz, nós somos de uma mudez irreparável, eu te toco, você se desfaz, tudo se desfaz ao toque, nós nos ameaçamos, nos desfazemos, e outro silêncio nos toma e outro silêncio se esvai

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Carta para o amor eterno (com a sensação de que eu podia ter dito muito mais)

Carlos, eu tenho um monte de coisas pra te dizer e hoje eu decidi que vou expurgar da minha garganta esses demônios a seu respeito. Carlos, você é um ser que, olha, eu não sei nem por onde começar, mas você me dá nos nervos. A começar pelo seu emprego, sabe. Que merda de trabalho é esse, Carlos?! Já te botaram pra trabalhar um mês inteiro sem folga, com uma jornada de trabalho monstruosa, que te suga, e você abaixa a cabeça e diz "sim". Carlos, tudo bem, é o SEU trabalho e longe de mim ser idealista, só que assim não dá. Você vive sendo explorado. E o pior, Carlos, você não tem ambição. Aceita tudo como se tivesse de ser assim e ponto. Tá sempre cansado, com dor de cabeça. Carlos, eu não me lembro da última vez que te vi disposto. Óbvio que o cansaço e as dores de cabeça não se devem apenas ao trabalho, mas às suas ressacas homércias. Carlos, não bastasse o seu trabalho pra te destruir, você bebe horrores! Você arranja assunto não sei de onde pra não sair do bar com seus amigos ébrios. Eu me sentia culpada em transar com você. Chegávamos em casa às 3am, enquanto você tinha que acordar às 7am. E transávamos. Depois você perdia o sono. Você não é como os outros homens que depois do gozo apagam. Você, ao contrário, perde o sono. É claro que eu gostava de ter alguém pra me amparar do sexo, depois do sexo. A gente conversava, e eu também perdia o sono. Mas o fato é que Carlos, você pouco dorme, mas parece que você vive num sono profundo, porque você não se dá conta de nada. Carlos, além de beber, você fuma com-pul-si-va-men-te. Você é uma chaminé ambulante, Carlos! Você fica ansioso quando ainda faltam cinco cigarros pro seu maço acabar! Carlos, você fuma mais que todos os seus amigos JUNTOS. O meu cabelo, eu mal posso aproveitar o cheiro de shampoo, que fica logo todo impregnado com esse fedor de fumaça. Eu fico sufocada, Carlos, mesmo. E você pouco se importa, você nem faz o esforço de fumar sequer um cigarro a menos. Foda-se o meu bem-estar. E além de fumar cigarros lícitos, você fuma os ilícitos também. E parece que você está constantemente emaconhado, numa leseira interminável. Eu me pergunto, Carlos, quando você vai acordar. Você fuma, mija e CHEIRA todo o seu salário de miséria. Carlos, seu pai ainda paga tua conta de celular, que eu tenho certeza, não sai barata, essas tarifas são um abuso. Outra coisa que me incomodava: teu bairro. Teu bairro fedia a amônia. Ok, vou ser mais clara: urina, era mijo puro a tua rua. Teu prédio, também, nada me agradava. Eu tinha nojo dos seus vizinhos. Nunca vi ter tanta velha e gorda num prédio só! Todo o mundo lá era louco. E eu vivia desconfiada de que o povo ouvia a gente transando. Porque, sabe, eu me preocupava com minha performance. Fazia gemidos dignos de filmes pornôs, e dos bons, hein. Eu sei que você gostava. Mas não me sai da cabeça que aquele seu vizinho maratonista-wannabe ficava com os ouvidos grudados na parede pra ouvir. Ah! AHAHAHAAHA Lembrei do dia em que a gente quebrou a cama. Ainda tá quebrada, Carlos? As outras sabem o motivo? Quantas você já comeu naquela cama? Aliás, você já consertou aquela infiltração na parede do quarto? Olha que um dia aquela parede ainda cai bem na hora em que você estiver comendo uma louca qualquer, tô te dizendo. Era horrível dormir naquela cama cheirando a mofo, aquela umidade digna de presídio. O concreto se desmontando sobre minhas pernas. Um dia qualquer aquela parede cai e você vai se deparar com seu vizinho bem do ladinho dela ouvindo os gemidos fingidos de uma louca qualquer. Tá, eu fingia. Sim, TODAS as vezes, absolutamente todas. Não, eu não sou frígida. Às vezes eu até te dizia a verdade "Não, amor, não cheguei lá, mas foi ótimo mesmo assim", pra fazer com que as vezes em que eu fingisse ter chegado "lá" fossem mais verdadeiras. Eu nunca soube quando você acreditava ou não em mim, então não fazia muita diferença mentir ou dizer a verdade sobre certas coisas. Mas eu odeio quando você insinua que sou dissimulada, que sempre fui. Eu te odeio tanto, Carlos, eu odeio o fato de ter me entregado a você, na mais asquerosa concepção de se entregar a alguém. Falando no teu apartamento, me explica aquela sua cozinha, Carlos. Não tem um armário que feche, as paredes tem no mínimo três centímetros de gordura e você deve ferrar com a caixa de gordura do prédio, com tanta porcaria que joga pelo ralo. Sabe, eu até sentia bastante prazer em lavar tua louça. Mas, poxa, tinha prato de mais de três dias, ou muito secos, com a comida toda grudada, ou um ecossistema de esgoto em cima da pia. Ai, Carlos, você não sabia fazer café. Lembra que eu te ensinei? E te ensinei a cozinhar arroz, também. Teu feijão era gostoso, o melhor que já comi na vida. Teu abraço, também. E teu beijo, embora não sem ressalvas: você podia explorar melhor a língua. Fica a dica pra quando você for pegar as próximas loucas. Todas são doidas, né, Carlos, quanta coincidência! Ai, eu pensei que fosse me esvaziar dizer tudo isso, mas está me cansando. Como eu me cansei de você e da sua mediocridade. Da sua vidinha pobre de submundo existencial. E tem mais, Carlos Alberto: seu nome é escroto.

sábado, 23 de agosto de 2008

diálogos II

Ele elogia meu 'decote'.
-Mas não pense que sou apenas um par de seios!
Ele faz cara de absurdo.
-Não, claro que não! És também um par de coxas.

sábado, 9 de agosto de 2008

a escultura perecível de nossos corpos errantes, enquanto tu me erravas no dentro de mim e eu me derramava em avessos pelos quadris, pelos peitos, pelos pelos, num fluxo incessante de arrependimentos, noites sem depois, ausências que se sucediam, dores que se precipitavam, esperas e ardências, a nossa incomunicabilidade, o esforço para estabelecer um fluxo que fosse, algo sem impedimentos, tardes e mais tardes, eu do teu lado, tu deserto, devolvendo-me à beira, ao que eu pertencia, ao que me pertencia, ao não pertencimento de coisa alguma, décadas sem mémoria nos teus olhos, tua não revelação, nosso imenso desencontro, eu errante, ao te buscar pelo avesso, pelos quadris, pelos pelos, no teu dentro imenso desencontro

domingo, 22 de junho de 2008

Confessionária
Primeiro, o calor do meu hálito, depois, a ponta da língua, nunca tão leve, pousei-a sobre meu ombro esquerdo, a língua ainda tímida, surgindo entre os dentes, beijei-me com duas ondas, não havia suor, beijei-me com tamanho ardor que cheguei a apertar meu braço esquerdo com minha mão direita e apertei forte com meus dedos sem esmalte, não senti gosto algum, mas o gosto ficou. No aparelho de som, uma voz de nome bíblico cantava e repetia versos em inglês, algo como you and me and the sea and the breeze, que não quero lembrar agora, mas fazia sentido. Encolhi as pernas, tranquei-as com os braços como se me protegesse o ventre. Algo como quando eu experimentava a morte, na piscina, submersa, nãopossorespirar, nãopossorespirar, os sons distorcidos, um pouco mais de silêncio, um silencio tão denso quanto a água, esse desfalecimento. Virei-me de bruços para a cama, o corpo ainda trancado, éprecisorespirar, éprecisorespirar. Experimentei morrer novamente, mas morrer sobre a cama não tem tanta paz quanto morrer na piscina lá de casa, morrer na cama não é azul. E vá lá, eu não queria nem quero morrer. Ainda mais depois daquele beijo. O ombro melado, a saliva secando e repuxando a pele. O braço doído do meu aperto. Quantas vezes mais será necessário ressarcir-se da dor? Agora tudo me parece mais fácil, mesmo que para os outros seja incompreensível. Ainda mais depois daquele beijo.

sábado, 7 de junho de 2008

do orgânico do ser II

Hoje vi um homem sem as tuas feições. Era louro, usava óculos pequenos, de armação preta, fina. Para ele, talvez o mundo tivesse bordas, enquadramento. Não falo de sentido. Num dos cafés mais caros da cidade, esse homem sem as tuas feições mastigava um sanduíche, e mastigava como se mastigasse a própria vida. Com vingança. Também eu queria te mastigar assim. Com mais lentidão e menos voracidade, porque não tenho fome.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

do orgânico do ser I

A fome é o que nos faz primitivos. Não os instintos, o medo, a violência. Mas a fome inadiável. Maria alimentava-os, não se sabia se com pena ou desdém, se para mantê-los ou fazê-los apenas silenciar. Não se sabia se Maria saciava-lhes a necessidade primeira por compaixão ou mera conduta. O que Maria via naquelas bocas disformes, suplicantes, o que Maria sentia quando neles se assentava a fartura mendicante. As sobras do outro dia, os restos dos que virão. Ser ou deixar de ser não nos livra a ninguém.

sábado, 3 de maio de 2008

que mistério tem Clarice
sou uma imagem antes de ser uma existência. entenda, eu mesma, eu não me vejo. mas posso me reconhecer nos olhos dos outros, quando me vêem. porém não é sempre que me vêem, então eu me pergunto se minha existência está condicionada aos olhares dos outros, se só existo enquanto posso ser vista, ou se os olhares são apenas o ponto de partida para mais uma existência. e penso: quantas vezes posso existir? o que há entre uma existência e outra? qual o meu lugar no meio disso tudo? tenho eu a consciência de que não existo quando deixo de existir? alguém espera por mim, vela por mim, enquanto não existo? devo esperar pelo dia em que não vou existir em absoluto, em definitivo? existir é a origem do ser ou é aonde se quer chegar? existir é chegar e não existir é o mesmo que partir? há que se contruir algo, há que se derrubar? há que ser o tempo todo? seria minha existência uma imensa cegueira, um despropósito? posso me reconhecer nos olhos dos outros, nos tons do desgosto, nas palavras que morrem sem serem ditas, posso me reconhecer no antes e no depois, posso ser o não dito, posso passar a vida toda adiando esta compreensão,

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Eu só queria as suas mãos na minha para atravessar a rua estreita desta noite escura. Só tuas mãos nas minhas e a fé deste momento. I. dizia que a fé é irresistível, sobretudo em épocas de pouca fé; I. existia. De repente, era como se houvesse um incêndio na Avenida ao lado. De repente, havia. Uma luz forte irrompia o céu. Ninguém deixava os prédios, ninguém corria nem gritava. Ninguém morria, além de nós, no meio daquela noite estreita nesta rua escura. E éramos nós a retraçar o horizonte, remontando os destroços que carregávamos dentro do peito. Não te desespera que ainda sejamos os mesmos, trancorridos o tempo e a chuva?

Tu não viste - dois carros na ponte. Tu não viste - uma mulher grávida. Tu não viste - um cego a caçar galinhas. Eu que nunca me dou conta das paredes, hoje resolvi: entre elas, entre nós, não mais estes segredos absurdos, corrosivos.

Ficar ou partir nunca é gratuito, dizia a puta do filme. As mulheres ressuscitam umas nas outras, as honradas ressuscitam nas putas, as putas ressuscitam nas honradas, disse J.S. Descobertas minuciosas de que padecemos todas.

A cidade suspensa, desacreditada de nós. Eu não era capaz de separar o sentimento da doença, nem mesmo agora depois da consciência de que eram coisas distintas. Caberia, aqui, referir-me aos outros tantos e impertinentes casos? Aqui já não cabe mais nada.

sexta-feira, 28 de março de 2008

"

Enquanto lias sobre a vida dos santos, eu procurava na incerteza das horas alguma resposta para teu alheamento. Lias e relias e talvez encontrasses respostas. O amor é uma sôfrega e contínua renúncia.

quinta-feira, 13 de março de 2008

diálogos I

E então você disse Vem morar comigo e eu disse Tenho minha família, não posso, não pode ser assim e você disse Também tenho, mas vivo só e eu preferia ser sozinho junto e eu disse Não temos dinheiro e você logo disse Onde come um, comem dois e eu disse Mas não é só isso e você disse Também posso lavar suas roupas, é só colocar tudo dentro da máquina, tão fácil e continuou Que tal comermos aqueles chocolates que te trouxe e eu disse Estamos na quaresma, espera a Páscoa, não falta muito e você disse que É sempre tempo de comer chocolates e de chupar sacolés e de fazer amor e eu disse Não faço questão dos chocolates ou de mais nada e você retomou o assunto dizendo Por que não vem morar comigo e eu disse Não gosto do seu bairro mas eu estava mentido e você se feriu e daí me disse A única exigência que eu faço é a de que moremos aqui, minha única condição e eu tentei dizer Há mais condições do que imaginamos e entre nós, principalmente, somos condicionais em demasia mas eu não disse e você se irritou Por que não diz logo que não quer morar comigo, que o problema sou eu e eu disse Não desvirtua a conversa e você me pediu para parar de gritar mas eu não estava gritando e você ficou bravo e começou a tremer e eu te vi tomado por tanta raiva que me arrependi de tudo e tive medo de você tão forte assim (há força nos faça mover mais que a raiva?) e não nos tocamos por três noites e faz quatro dias que não vejo teus olhos dentro deles mas não me sinto no direito de ficar brava.

sábado, 8 de março de 2008

da série 'pondo fim à hermeticidade do nocturnas', e a convite do querido Macir Caetano, olha eu, na semana de convidados do Blog de 7:

http://www.blogdesete.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de março de 2008

de repente
era como se tudo fosse
Ana prestes a acontecer

sábado, 1 de março de 2008

cartas litorâneas II

penso nas razões que te levaram antes que o verão acabasse. ainda era pôr-do-sol quando cansaste de nossas buscas. suponho que tenhas te esforçado um pouco a fim de permanecer junto a mim, dentro das tardes que compusemos de areia, vento e mar. suponho que tenha te doído a verdade da partida.

(um vento forte de açoitar a pele, uma agressividade áspera sob a qual tantas vezes nos desfizemos em um par)

fomos tão breves que nem soubemos o fim. e tu dizias e não dizias as tuas razões e eu compreendia e não compreendia tua firmeza nelas.

mas chega um tempo em que esses e outros detalhes já não fazem diferença.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Havia sido difícil e demorado lavar a louça, naquela manhã. Dobrar as roupas, guardá-las no armário, lembrar a história de cada um daqueles móveis. Séculos e séculos de um tempo que Helena simplesmente desconhecia. Todos eles escolhidos por Julio, que, claro, sempre a consultava e fazia depender de seu aval, mas faltava-lhe o tato, o refino, a decisão. Havia música, como em todas as manhãs, o som do vinil, repleto de ruídos que enriqueciam as canções em vez de prejudicá-las. Os ruídos, pensava Helena, eram o retrato de um tempo passado em que não vivera, mas lá estavam para reafirmarem que de nada vale o esquecimento para aqueles que não deixam de sangrar. Os ruídos talvez fossem ruínas sonoras. Helena aprendera com Julio a admirá-las, a tocá-las, e, sobretudo a distigüi-las. Rituais, Helena era apegada a rituais: lavava primeiro os copos, depois os pratos e, por fim, os talheres. O quintal era um cenário de devassidão. Se Julio pudesse olhá-la dentro dos olhos, o veria. Folhas secas, milhares delas, uns tantos gravetos, e outros abandonos pequenos. Helena tirava como lição que o exercício do desprendimento ocorria de maneira natural no lhe era exterior. Por quê, afinal, consigo, não poderia ser assim? Não era o caso de deixar de sofrer, disso Helena não se queixava. Eram a coluna deveras encurvada e a vista turva que a incomodavam. "Preferia ser coxa", pensava Helena, que o pensamento é o primeiro passo para transpor-se do que não é ao que é. Pensou nessas e em outras coisas. Quis queimar aquelas folhas secas, fazer uma fogueira e dependurar-se sobre elas, como uma auto-inquisição - "Devo é ser uma bruxa". Colecionava ervas, temperos, essências e artigos de pintura, embora nunca soubesse o que fazer com eles. Gostava de tê-los, gostava de cuidá-los. Diariamente conferia cada artigo, organizava-lhes a ordem. Alinhava as compotas - laranja da terra, mamão verde, abacaxi. E também as conservas que agradavam tão-somente ao paladar de Julio. Quiçá houvesse Ele ou outro qualquer na casa para bagunçar-lhe as obstinações. Tanto esforço por tão pouca louça, Helena fazia. Retirava as bandejas da arca, os talheres de prata, também. Lavava, enxugava, guardava. E havia as gavetas, eram tantas! Tirava-lhe o conteúdo, sorria-se ao encontrar sempre os mesmos postais, vindos de longe, de lugares onde jamais saberia. Guardava em segredo uma carta de amor de cinema, endereçada à Srta. Mattos Freire, datada de 1948. Uma antiga moradora, talvez. Perdeu a conta de quantas tragédias íntimas narrara para o fim daquela história. Afinal, o que é o amor senão uma penosa eternidade prestes a deixar de ser? "E se a tal Srta. fosse coxa? Coxa e amada, que ironia!" O licor de pitanga sobre a mesa, porque era mais doce superar as noites se houvesse um cálice de licor para aquecer-lhe o estômago e acalmar-lhe as vísceras. Tantas formas de morrer, tantas mortes absurdas - um tropeção e bate-se a cabeça no meio-fio, um choque elétrico de tamanhã carga, um susto qualquer. E lá estava Helena a cada dia mais viva, com uma certeza que se confirmava quando observava sua pele elástica, seus olhos inevitavelmente abertos, ávidos. "Por que tanta disparidade entre a figura do espelho e meu cansaço?", perguntava-se Helena. Varria a casa, encerava os móveis. Mais tarde, encerava-os novamente. Desempoeirava livro por livro. Jamais os abria. Uma forma de respeito, na concepção distorcida de Helena sobre todas as coisas. Livro por livro, letras mortas, sucessivas mortes na estante. Inúmeras delas atraídas por um abismo mais fundo que o peito de Helena mulher.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

e quando mais me dóis, silencio, deixo as palavras guardadas nos bolsos, nas gavetas, no esôfago. não digo essa dor, porque não sei dizê-la, porque não sei expor, ou porque talvez tudo já tenha sido dito. apenas silencio, deixo que me doas.


(e não é à toa que doer é verbo defectivo)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Quando as coisas assumem o poder de se perpetuarem além de si (de sua existência)



Se me refiro às coisas, assim, tantas vezes e em tantas ocasiões é que as coisas pra mim são tudo, ou quase, que não gosto de generalizações. A vida tem se resumido a fazer o que deve ser feito. Ponto. Que estranho caminho para a felicidade, diria Barbara. Não é de se admirar que eu seja triste. E triste sem motivos tantos que justifiquem. De modo que nenhuma espécie de piedade legítima consigo atrair para mim sem culpa, o que me torna mais triste ainda. Ontem quando conversávamos sobre as adversidades do tempo, eu te dizia que só o tempo nos acompanha. Vão-se os pais, os amigos, os amantes, os fatos, só fica o tempo, o que passou, o que virá. Então, eu queria entender melhor a medida das coisas, da intensidade delas, do esquecimento. Encontrei novas formas de chamar teu nome, me distraí ao longo das avenidas. Não corri perigo durante toda essa nossa busca. Não achava que perigo fosse condição pra coisa alguma valer a pena. Eu era um espasmo permanente de lucidez. Eu não queria que fosse diferente, eu não pensava em como poderia ter sido. Eu construí uma margem entre o mundo e eu. Você estava no meio dela. Não era de todo do lá-fora, nem tanto imerso aqui dentro. Talvez fosse a terceira margem de um outro rio. Mas me percorria, e agora se perpetua em mim. Você é minha cegueira. Agora, repentina, descubro. Uma cegueira que de tão cega doía a vista, o peito. Você, meu inferno, meu corte, meu translado.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

parece dezembro, parece frio e não há mais cigarros. nem aqui em casa nem no bares nas bancas de jornais nas padarias. não há mais fome. e, se formos mais além, também não haverá mais cuidado nem zelo. somente o desmedido.
é dezembro, é frio. não há mais tristeza, não há caminhões nas ruas, não há ruas que te levem a outro lugar. logo não haverá rancor. mas sentirei falta de teus dentes, de algumas palavras, do gosto vivo do café. logo perderemos os guarda-chuvas, logo seremos ateus, logo-logo nos esqueceremos para não crermos no quanto fomos.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Nota preliminar: Catarina tinha o poder de trazer o mar duas ondas pra cá da beira.

a intenção era ensiná-la a liturgia das horas, mas Catarina só entendia era o desajuste delas. ninguém havia lhe dito o quanto de desafeto as horas tinham pela vida, isso Catarina aprendera sozinha. para ela, as horas definiam-se como pedaços de eternidade que morrem. arquitetou extinguí-las, como se as horas representassem a contagem das dores, portanto dores sem medida, sem lugar no tempo, deixariam de haver. seria então, apenas o tempo, solto, que esse, Catarina sabia não haver meios de extingui-lo. desejou que Tadeu, antes que a consumisse, como o tempo consumia às horas, que Tadeu perdesse um pouco daquela sua humanidade tão dócil e comovente. apaziguou os conflitos íntimos, transformou-os em rupturas, compensou as dores que a remetiam ao instante anterior à consumação de Tadeu. e disse, com o rosto inexpressivo 'sou guardiã dos teus silêncios'. mas disse baixo, fazendo as palavras arrefecerem-se. Tadeu não pode ouvi-la. é que Tadeu não fazia questão de sabê-la. trouxe-a mais perto do peito. Catarina não demonstrava resistência, mas dentro de si, debatia-se por não saber evitá-lo. como evitar Tadeu, sua humanidade, a consumação prestes a acontecer? Catarina não sabia como evitar aquelas horas. e por isso, morria dentro do peito do Homem. morria para abreviar o tempo, ou, talvez, morria por não saber dizer ou calar ou o que quer que fosse a repeito de Tadeu.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

e se eu te disser que as coisas sangram. sim, sangram. as casas, também. as casas, as coisas e as ruas. tudo sangra uma seiva endurecida do outro dia, o torpor de outrora. quando me levanto, em meio à noite, enquanto Álvaro e tu dormem, sinto o cheiro do sangrar das coisas, e da casa. compadeço-me com aquelas dores. ser humana, para mim, não basta. é preciso transpor-me a outras condições existenciais. ceder um pouco de humanidade a outras formas não-humanas, que, como eu, ferem-se com as manhãs, lamentam as noites, choram luz. é preciso, é urgentemente preciso, que saibas do sangue frio que me envolve quando teus braços despojados não se enlaçam nem no meu corpo, nem no de outras. as coisas talvez não tenham calor. de fato, as coisas não o têm. as coisas talvez não digam. mas eu entendo, eu espero, eu assisto. tu no quintal, Álvaro descalço - isso me dizia muito mais. o quê, meu Deus? como conviver com a anuência do tempo? o que te matinha, o que mantinha a Álvaro? por isso, prefiro o segredo das coisas, porque as coisas, meu bem, eu revelo, eu posso desacobertá-las, entende. e as coisas também se revelam. tu e Álvaro não; ambulantes espectros de mim.