no tempo em que não nos comovia a cegueira do mar, seguimos os passos que nos levariam até aquela morte absorta. tu seguias os meus, eu seguia os teus, nos revezávamos no exercício da sinuosidade, nos desencontros e compartilhávamos da mesma falta de um norte. me evitaste por um breve instante e logo em seguida disseste que nunca estive tão bonita a teus olhos. emudeci, quis desculpar-me pela audácia das outras tardes, em que tive de negar-te abrigo do vento e do descaso. a audácia de ser tanto e tantas sem ti. talvez absorver a perenidade das coisas, talvez enobrecê-las com meus instintos, talvez ferir-te uma vez mais para que pudesses amar-me do mesmo jeito persuasivo com que proclamava tuas teorias, para que me convencesses, à força, de que me amavas tanto quanto a elas. tu me conduzirias até a beira daquele absurdo no qual estávamos inseridos, tu discorrerias acerca da mundaneidade daqueles nossos momentos. então, eu me faria submissa, pouco caprichosa, entendedora de teus ditames - os outros diriam compreensiva e doce - até que numa manhã chuvosa te visses repleto de mim: odor, vestimentas, sentidos. até que tu não soubesses como dar um passo atrás para fugir daquela morte inevitável em direção à qual caminhávamos. até que tu te desses conta de que aquela morte era a tal beira do absurdo para que tu me conduzias. a morte, meu caro, ou alguma outra espécie de plenitude para nós.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
no tempo em que não nos comovia a cegueira do mar, seguimos os passos que nos levariam até aquela morte absorta. tu seguias os meus, eu seguia os teus, nos revezávamos no exercício da sinuosidade, nos desencontros e compartilhávamos da mesma falta de um norte. me evitaste por um breve instante e logo em seguida disseste que nunca estive tão bonita a teus olhos. emudeci, quis desculpar-me pela audácia das outras tardes, em que tive de negar-te abrigo do vento e do descaso. a audácia de ser tanto e tantas sem ti. talvez absorver a perenidade das coisas, talvez enobrecê-las com meus instintos, talvez ferir-te uma vez mais para que pudesses amar-me do mesmo jeito persuasivo com que proclamava tuas teorias, para que me convencesses, à força, de que me amavas tanto quanto a elas. tu me conduzirias até a beira daquele absurdo no qual estávamos inseridos, tu discorrerias acerca da mundaneidade daqueles nossos momentos. então, eu me faria submissa, pouco caprichosa, entendedora de teus ditames - os outros diriam compreensiva e doce - até que numa manhã chuvosa te visses repleto de mim: odor, vestimentas, sentidos. até que tu não soubesses como dar um passo atrás para fugir daquela morte inevitável em direção à qual caminhávamos. até que tu te desses conta de que aquela morte era a tal beira do absurdo para que tu me conduzias. a morte, meu caro, ou alguma outra espécie de plenitude para nós.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
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Álvaro não veio nem virá, nós nem chegamos a acontecer e o peso das coisas recai sobre mim sempre que te encontro ainda turvo sem nome e tento retomar a alegria de um outro verão.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Eu nunca mais fui à praia. O pontal agora estava mais deserto. As casas e as ruas também morrem, talvez essa fossem a mensagem da destruição que obriga ao abandono e deixa um gosto de tristeza nas fotos e na lembrança. Tantos haviam deixado seus verões no fundo daquelas águas intempestivas, que poderiam ser o mar de qualquer litoral, mas era o princípio de minha memória. Dali em diante, as águas daquele mar seriam minha história, as águas sem-fim.
Não tenho nada a ver com Caio e Ana, mas eles me pedem, cada um em seu íntimo, que eu os diga. Não tenho nada a ver com Caio nem Ana, mas já choramos no mesmo vagão. Caio e Ana estavam lá, no cenário da minha memória. Um dia, me visitariam num fim-de-tarde para falarmos dos filhos que não tiveram e do quanto nos custou a vida.
Ana, vestida de festa, não pôde conter a ânsia de ver o mar desabando sobre seus pés. Era como se todas as coisas estivessem à espera daquele momento. Porque Ana se dedicava à admiração das coisas. Embalava-as com seu olhar, tinha um monte delas nos olhos. (Eu pensava que a vida de Ana concentrava-se neles. Certa vez, aproximei-me quase a ponto de tocá-los. Hesitei a tempo de manchar com o toque aquele fundo, o espaço onde Caio e Ana me vinham.) Caio dizia muitas palavras duras, que se petrificavam na sua rouquidão. Caio dizia pedras. Ana se calou. Deixou a fala de Caio suspensa no ar, sem revanche. Aprendera que, para Caio, a decepção era uma forma de conquista. Assim, Ana o mantinha sem contê-lo. Naquele tempo, era mais difícil o querer conjugado à dor. "É estranho que me ames, a despeito de minha aridez." E foram tomados, até mesmo Caio, por um constrangimento passageiro. Logo as coisas retomariam sua velha ordem de ser, presumia Ana, antecipando seu alívio. Ana cada vez revelava-se menos, cobria o colo, não deixava que ele a visse no banho. Ana, subversiva, pensava "É estranho que o ame, a despeito de minha aridez".
terça-feira, 14 de agosto de 2007
sexta-feira, 20 de julho de 2007
terça-feira, 17 de julho de 2007
segunda-feira, 16 de julho de 2007
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Não disse. Tampouco lhe perguntou, nada a respeito da doença da mãe, da venda do sítio em Minas, da tese de doutoramento. O avesso: deixou que se instalasse e permanecesse um silêncio que caía como se borrifado no ar, atingindo a pele, conferindo-lhe um breve repouso e dissipando-se por toda a sala - inspiração e expiração de Caio e Ana, tão somente um par sem ser. Os ponteiros do relógio cruzavam-se às cinco horas quando Caio em Ana. Os dois a tecerem a tarde sem sonhos daquela tarde. Ignoravam sem saber os precipícios que seriam as noites subseqüentes, em parte porque sabiam-se desprendidos de si, em parte porque queriam-se acoplados sem se pertencerem. Depois disso, o beijo, o derradeiro; Caio apoiado na parede, vão da porta, braço direito alongado em direção ao teto, o esquerdo na maçaneta. Ana de costas, se afastando no corredor, cabisbaixa porém refeita. O que ficou: a tarde descolada do tempo, um segredo denso e vivo em duas metades, um segredo que lhes valeria o amor.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Enganávamos um ao outro dizendo que o amor mora nos corpos, instalado na carne e que, por isso, um dia viria a apodrecer. Ninguém entenderia a compreensão a que chegamos, de fazer do amor matéria onde se daria a condição da vida. Ninguém nem mesmo saberia.
Tu, então, trarias novos limites ao entendimento. Tu despirias o porquê das coisas para que elas fossem em sua plenitude. "As coisas não tem paz", tu te repetias para dizer a mim. Eu te amava tanto nesses momentos, que tinha medo de que tanto amor gastasse a vida. Eu erodia o tempo nestas horas íntimas. Eu te fazia outro para amar-te em outras formas, mas no fundo de ti, que era sempre o mesmo, eu sempre encontraria o tato da verdade indizível das coisas, de nós, do próprio fundo. Alcançaríamos juntos tais limites?, ou somente tu é que os reestabeleceria, trazendo-os posteriormente a mim?
Eu sei que temes a putrefação do amor. E este é o nosso maior segredo, o segredo que guardamos sós, no cerne da solidão de nos sabermos. Eu no fundo de ti, tu no fundo de mim, tudo vão.